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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Na pandemia, Brasil atinge 65 bilionários e 19,1 milhões de famintos

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

06/04/2021 19h05

Além dos recordes de mortes diárias, o Brasil atingiu duas marcas durante a pandemia que são antagônicas apenas na aparência: passou a ter 20 bilionários a mais que no ano passado e, ao mesmo tempo, registrou 9% de famintos - a maior taxa desde 2004.

De acordo com o ranking anual da revista Forbes, houve uma explosão no número de bilionários no ano em que o mundo foi assolado pela covid-19. A lista registrou um recorde de 493 novatos, ou seja, um bilionário a mais a cada 17 horas.

O patrimônio desse grupo foi de 8 para 13,1 trilhões de dólares entre 2020 e 2021. Conta com 2.755 indivíduos.

No Brasil, a quantidade de bilionários foi de 45 para 65, com um aumento de patrimônio total de 72%: de 127,1 para 219,1 bilhões de dólares.

Os números foram divulgados, nesta terça (6) - dia em que o governo federal retomou o pagamento do novo auxílio emergencial. Enquanto, no primeiro semestre do ano passado, o benefício variava de R$ 600 a R$ 1200 por domicílio, agora vai de R$ 150 a R$ 375.

O piso vai comprar apenas 23% da cesta básica em São Paulo, segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

Pesquisa divulgada, nesta segunda (5), pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional apontou que o país somou 19,1 milhões de pessoas que passaram fome em um universo de 116,8 milhões que conviveram com algum grau de insegurança alimentar (não tendo acesso pleno e permanente à comida) e em 2020.

A fome atingiu 9% da população, a maior taxa desde os 9,5% de 2004. Em 2018, eram 10,3 milhões de brasileiros nessa situação.

A pesquisa ocorreu no último trimestre do ano passado, quando o auxílio emergencial já havia caído para uma faixa entre R$ 300 e R$ 600 por domicílio. Ou seja, a situação agora é pior, uma vez que o governo Jair Bolsonaro interrompeu o pagamento do benefício na virada do ano e está retomando apenas agora, de forma escalonada.

"É aviltante que o número de bilionários tenha aumentado em uma crise de grandes proporções como a que estamos enfrentando. Isso reforça a urgência de procurar formas nacionais e globais de enfrentar a concentração de privilégios, que faz com que exista um setor da sociedade que sempre ganha", afirmou Katia Maia diretora executiva da Oxfam Brasil.

Ela chama de "aberração" o fato de o país ter um pequeno grupo em uma "categoria premium", que concentra a riqueza, e 116,8 milhões sem saber se irão comer todos os dias. E reclama do tamanho do novo benefício. "Esse valor de auxílio emergencial é a despriorização da vida humana."

O Ministério da Economia diz que esse é o máximo que pode ser transferido aos trabalhadores informais pobres. A oposição no Congresso Nacional e mesmo membros da base do governo discordam e apresentaram propostas para aumentar esse valor tirando receita dos mais diversos locais - até do cartão corporativo de Jair Bolsonaro.

A chance da Medida Provisória que determina os valores do benefício ser colocada em discussão e votação é pequena. Os líderes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), aliados do presidente, devem deixar a MP caducar em quatro meses - prazo de sua validade.

Em outros locais mais ricos, como o Reino Unidos, o Canadá e alguns estados nos Estados Unidos, discute-se a taxação temporária de multimilionários e bilionários para ajudar na situação fiscal de seus países durante a pandemia.

Houve até um documento assinado por super-ricos dos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Canadá, Dinamarca, Holanda, Nova Zelândia, entre outros, chamado de "Milionários pela Humanidade", pedindo para que seus países joguem os custos da pandemia de coronavírus em suas costas.

"Os problemas causados e revelados pelo Covid-19 não podem ser resolvidos com caridade, por mais generosas que sejam. Os líderes de governos devem assumir a responsabilidade de levantar os fundos de que precisamos e gastá-los de maneira justa. Podemos garantir que financiemos adequadamente nossos sistemas de saúde, escolas e segurança por meio de um aumento permanente de impostos sobre as pessoas mais ricas do planeta, pessoas como nós", afirma a carta.

No Brasil, a progressividade de cobrança de impostos, taxando de fato os super-ricos, é um dos temas tabus da sempre adiada Reforma Tributária e causa calafrios em uma parcela do mercado. Tão tabu quanto outro assunto que está diretamente relacionado a esse debate: a emenda do teto dos gastos. Pois a questão não é só gerar receita, mas possibilitar que se aumente os gastos com os trabalhadores pobres - o que é proibido por conta das travas dessa legislação.

A desigualdade dificulta que as pessoas vejam a si mesmas e as outras pessoas como iguais e merecedoras da mesma consideração. Leva à percepção de que o poder público existe para servir aos mais abonados e controlar os mais pobres. Ou seja, para usar a polícia e a política a fim de proteger os privilégios do primeiro grupo, usando violência contra o segundo, se necessário for.

Com o tempo, a desigualdade leva à descrença nas instituições. O que ajuda a explicar o momento em que vivemos hoje.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL