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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com recorde de morte e de desmatamento, Bolsonaro é ameaça biológica global

Vista área do cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus - Michael Dantas/AFP
Vista área do cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus Imagem: Michael Dantas/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

10/04/2021 08h57

O governo Bolsonaro bateu dois recordes neste 9 de abril: o maior número de mortos registrados em uma sexta-feira, 3.647, e o maior desmatamento da Amazônia registrado para um mês de março desde o início do atual monitoramento em 2015: 367,61 km².

Ambos não são consequência da ausência do Estado. Pelo contrário, apresentam-se como indicadores de uma ação sistemática de sabotagem do poder público no combate à pandemia e no enfrentamento à destruição da maior floresta tropical do mundo.

Desde que a covid-19 chegou por aqui, o presidente da República menosprezou a doença, atacou o uso de máscaras e o isolamento social e não só demorou para comprar vacinas como fez uma campanha pessoal para desacreditar o imunizante - o que fará com que o vírus circule e mate por aqui por muito mais tempo.

E ele foi eleito com o apoio de pecuaristas, madeireiros e garimpeiros que operam de forma ilegal, sem contar os grileiros de terra. E conta com o suporte do naco anacrônico e predatório do agronegócio. Com a ajuda de seu ministro do Meio Ambiente, tem enfraquecido a fiscalização e passado a boiada em um ataque sem precedentes às leis e regras que protegem a floresta e sua gente.

Esses dois números, de mortes e desmatamento, vêm a público por resiliência. Após o Ministério da Saúde derrubar a transparência dos dados sobre covid-19, no ano passado, um consórcio formado por veículos de imprensa, do qual o UOL faz parte, começou a se dividir para coletar e calcular diariamente os casos e mortes.

Ao mesmo tempo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável pelo sistema de monitoramento de desmate, sofreu duros ataques de Bolsonaro e seus auxiliares militares, que acusaram os dados de satélites de serem falsos. O embate levou, inclusive, à demissão do presidente do instituto, o cientista Ricardo Galvão, em agosto de 2019.

A destruição da Amazônia tem um agravante, além daqueles já conhecidos, que é o de liberar vírus mortais que ainda não conhecemos, originando mais pandemias, como acontece na Ásia.

Não à toa o mundo civilizado nos olha com cara de nojo, pensando duas vezes se vale a pena colocar dinheiro em um local que ameaça a saúde do resto do planeta de tantas formas diferentes. Pois esses patamares não são alcançados apenas com omissão e incompetência, mas são resultado de um projeto.

E Bolsonaro nunca escondeu esse projeto. Em um jantar nos Estados Unidos, em março de 2019, prometeu: "O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz".

O problema é que a felicidade de um está custando o presente e o futuro de 210 milhões.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL