PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mourão vê erro no corte do auxílio emergencial, mas foi sabotagem de Jair

Evaristo SA/AFP/Getty Images
Imagem: Evaristo SA/AFP/Getty Images
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/04/2021 17h25

Há dezenas de pedidos de impeachment contra Jair Bolsonaro repousando na gaveta da Presidência da Câmara dos Deputados. Se apenas um tivesse prosperado no ano passado, talvez parte dos trabalhadores não tivesse passado fome por três meses devido à interrupção no auxílio emergencial.

Isso é o que sugere uma entrevista do vice-presidente, general Hamilton Mourão, à Rádio Gaúcha, nesta sexta (16). Ele afirmou que o benefício "deveria ter sido prolongado". Em sua avaliação, "tínhamos que ter entendido que a pandemia iria prosseguir, não iria terminar em 31 de dezembro do ano passado", afirmou.

Se Mourão reconhece o grave erro do governo do qual faz parte, talvez tivesse tomado outra decisão caso fosse ele o presidente. Até porque Bolsonaro não reconhece que errou. Aliás, ele nunca erra. A culpa é sempre dos outros. O impeachment teria, portanto, evitado a fome de brasileiros.

O auxílio voltou a ser pago, de forma escalonada, no dia 6 de abril, ou seja, 96 dias depois, com valores de R$ 150, R$ 250 e R$ 375. No primeiro semestre de 2020, o benefício era de R$ 600/R$ 1200 por domicílio, passando para R$ 300/R$ 600 no segundo semestre.

Além de garantir a subsistência de trabalhadores informais pobres, o auxílio ajudou a segurar a economia brasileira, evitando uma alta ainda maior no desemprego e uma queda ainda maior no PIB.

Porém, o governo federal interrompeu as parcelas no final do ano, demorando para retomá-lo, ignorando o alerta de médicos e cientistas de que a segunda onda seria mais severa que a primeira. Era, portanto, fundamental garantir recursos para os trabalhadores pobres ficarem em casa e uma forma de injetar recursos na economia a fim de reduzir o baque.

O governo empurrou com a barriga o quanto deu, por questões econômicas e políticas. Queria dar uma sinalização de "responsabilidade" ao mercado, enquanto sabotava o isolamento social.

Bolsonaro sabe que nenhuma mãe ou pai ficaria em casa enquanto seus filhos iam dormir com fome. Trabalhadores preferiram tentar a sorte saindo em busca de bicos, contaminando-se em ônibus e trens lotados.

Com isso, o presidente jogou esse pessoal contra governadores e prefeitos, que decretaram o fechamento de setores econômicos como medida sanitária. Ele queria tudo aberto, para que a economia sofresse menos e, com isso, sua reeleição continuasse viável.

O resultado desse cálculo sinistro foi que ultrapassamos 365 mil mortos, com a maior taxa mundial de mortos por dia.

E, depois de tudo isso, ele ainda teve a coragem de afirmar que "a fome está batendo cada vez mais forte na casa dessas pessoas que lacrimejam seus olhos quando veem que não têm o mínimo para dar a seus filhos". A frase caberia a alguém que não tem responsabilidade alguma por essa fome, não àquele que foi o seu causador.

Além de chegar atrasado, o piso do benefício hoje (R$ 150) é tão baixo que compra apenas 23% da cesta básica em São Paulo, segundo o Dieese.

O então presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmava que a popularidade do presidente e o apoio com o qual ele contava no parlamento impedia que um pedido de impeachment prosperasse. Ao passo que o atual presidente, Arthur Lira (PP-AL), foi eleito com o apoio de Bolsonaro.

Por fim, este texto entra no rol dos escritos inúteis. Pois dizer que o Brasil seria melhor se Bolsonaro não fosse o presidente é de uma redundância atroz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL