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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

General mostra que Bolsonaro colocou um chefe de torcida na Defesa

Ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto - ADRIANO MACHADO
Ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto Imagem: ADRIANO MACHADO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

20/04/2021 17h30

Bolsonaro queria alguém à frente das Forças Armadas que lhe entregasse declarações para pressionar o Congresso e o STF e excitar seus seguidores de extrema direita. Pelo visto, conseguiu.

Na cerimônia de troca do comando do Exército, nesta terça (20), o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, mostrou que valeu a pena toda a dor de cabeça de Jair para substituir a chefia dessa pasta e a cúpula militar no dia 29 de março. Naquela segunda-feira tumultuada, o presidente foi acusado de instrumentalizar os militares em nome de um autogolpe.

Braga Netto, que deixou a Casa Civil para assumir o cargo, deu declarações que podem ser lidas como aviso aos ministros do Supremo Tribunal Federal e aos parlamentares para não criarem problemas ao seu querido chefe. Especialmente no momento em que a CPI da Pandemia vai investigar as omissões e perversões de Jair que ajudaram a erguer uma montanha de mais de 375 mil cadáveres.

"É preciso respeitar o rito democrático e o projeto escolhido pela maioria dos brasileiros para conduzir os destinos do país", afirmou o general em discurso.

Vivêssemos sob um governo que respeita a Constituição, isso seria uma platitude. Com um presidente que, semana sim, semana não, testa os limites das instituições, precisando ser contido pelos freios e contrapesos da República, a declaração ganha outro significado.

"O Brasil precisa estar unido contra qualquer tipo de iniciativa de desestabilização institucional que altere o equilíbrio entre os poderes e prejudique a prosperidade do Brasil. Enganam-se aqueles que acreditam estarmos sobre um terreno fértil para iniciativas que possam colocar em risco a liberdade conquistada em nossa nação", também disse Braga Netto.

Não chega a ser hipercodificado como um daqueles tuítes do vereador Carlos Bolsonaro voltado a entreter a base do presidente, mas vai no mesmo sentido, dando a entender ao bolsonarismo-raiz de que as Forças Armadas estão alertas e em prontidão para defender Jair. E, de quebra, enviando um escamoteado #ficadica aos Poderes Legislativo e Judiciário.

Mesmo que isso não tenha sido endossado pelo Comando do Exército, agora sob o general Paulo Sérgio Nogueira, é claro que a declaração provoca frisson na imprensa. E gera um burburinho que ajuda a desviar o foco do principal (o massacre promovido pelo presidente ao permitir que o coronavírus faça o que bem desejar com a população brasileira) e outros incômodos (como a denúncia de desvio de recursos públicos pelo primogênito do presidente que é motorista de quadriciclo).

Com a dança de cadeiras na Defesa e nos comandos das Forças Armadas, Jair queria os militares participando mais ativamente daquilo que, na sua opinião, é a guerra mais importante de nossa história recente. Evitar milhares de mortes por covid-19? Não, a autopreservação de seu clã. Para isso, precisa de subordinados de farda que não tenham medo de fazer comentários não-republicanos.

Quando o presidente reclamou que faltava "demonstração de apreço do Exército", ele estava se referindo, principalmente, a engajamento simbólico do então comandante da força, general Edson Pujol. Bolsonaro sempre exigiu um tributo de seus subordinados, ou seja, a defesa de sua persona na mídia e nas redes sociais. Ressente-se que as Forças Armadas não faziam isso com a frequência de ministros militares do Palácio do Planalto, como o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno.

Uma declaração de um ministro da Defesa ou um comandante do Exército que se meta indevidamente em uma discussão política tem mais poder do que horas de robôs contratados para encher com fake news o debate público. Até por que, por trás dessa declaração, há divisões de infantaria e um país com uma cicatriz semiaberta por 21 anos de ditadura militar.

Basta lembrar a interferência do então comandante do Exército, general Villas Bôas. Em abril de 2018, ele pressionou o Supremo Tribunal Federal, pelo Twitter, a negar um habeas corpus para Lula - o que veio a acontecer. O ex-presidente acabou preso, o que influenciou nas eleições daquele ano.

Desde que assumiu, o presidente vem comendo instituições. Receita Federal, Coaf, Procuradoria-Geral da República, Polícia Federal, de acordo com a necessidade de autopreservação. Agora, foi mais um passo nesse sentido, com pessoas mais próximas a ele no Ministério da Defesa, atuando na construção simbólica que deseja. Não vai dar um autogolpe com o Exército. Mas, por ora, nem precisa. Quer só mais uma fábrica de medo.

Por fim, vale se debruçar em uma frase de Braga Netto: "Enganam-se aqueles que acreditam estarmos sobre um terreno fértil para iniciativas que possam colocar em risco a liberdade conquistada em nossa nação".

Vejamos: em fevereiro de 2018, moradores de comunidades pobres da Zona Oeste do Rio de Janeiro foram "fichados" por militares. Parados de forma pretensamente aleatória (aleatoriedade do tipo "porta giratória de agência bancária"), eles foram fotografados com seus documentos e eram obrigados a aguardar enquanto a Polícia Civil, à distância, checava os antecedentes criminais.

A apresentação de documentos em abordagens é prevista em lei. Mas fotografar e reter a pessoa é uma bizarrice inconstitucional. As Forças Armadas, que estavam à frente da intervenção federal de Michel Temer no Rio, se justificaram dizendo que contavam com amparo para tanto no decreto que autorizou o uso de militares na cidade. Pena que "bom senso" não seja algo passível de decreto.

Dizer que isso é um ataque frontal às liberdades individuais é chutar um cachorro que já está morto há tanto tempo que entrou em decomposição, fedendo amplamente. O totó, para quem não se lembra, se chamava Democracia.

O nome do interventor federal na Segurança Pública no Rio de Janeiro? General Braga Netto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL