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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Não faz nem deixa fazer: Bolsonaro impôs um apagão deliberado de governo

Ansa
Imagem: Ansa
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

20/04/2021 10h59

O Brasil ultrapassou, nesta segunda (19), a marca de 375 mil mortos por covid-19. No mesmo dia, o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) divulgou que o desmatamento na região registrou o pior mês de março dos últimos dez anos.

A análise do comportamento do governo Bolsonaro diante da crise ambiental deve ajudar a CPI da Pandemia no entendimento de que o descontrole da doença não é fruto de omissão diante de responsabilidades constitucionais, mas de um apagão deliberado de gestão.

Tanto no combate à pandemia quanto no enfrentamento à destruição ambiental, o governo abre mão de seu papel de prevenir e fiscalizar e atua de forma agressiva para impedir que qualquer ator público ou privado ocupe o vácuo por ele deixado.

Como o presidente já afirmou, ele acredita que a melhor forma de acabar com o coronavírus é garantir a contaminação em massa e, a partir daí, formar uma imunidade de rebanho. Por isso, é contra a adoção de qualquer medida que impeça a sua propagação.

Governadores, prefeitos, médicos, cientistas que, diante da catástrofe humanitária, agiram para reduzir o contágio foram duramente atacados por Bolsonaro. O presidente chegou a ir ao Supremo Tribunal Federal pelo direito de impedir a adoção de isolamento social. O efeito colateral desse comportamento são centenas de milhares de mortos.

Da mesma forma, desde que assumiu o cargo, Bolsonaro vem atuando para enfraquecer as instituições voltadas ao monitoramento e controle ambiental, principalmente o Ibama e o ICMBio. Eleito com o apoio de pecuaristas, madeireiros e garimpeiros que atuam de forma ilegal, ele ataca fiscalizações que prejudiquem os interesses desses aliados.

Qualquer tentativa de interferência em sua estratégia por parte de governadores, de lideranças indígenas e quilombolas, de organizações da sociedade civil são respondidas com discursos violentos. O presidente chegou ao absurdo de culpar os povos tradicionais pelas queimadas na Amazônia em discurso na Assembleia Geral da ONU no ano passado.

Essa negligência violenta, que não faz e impede que outros façam, precisa ser alvo de escrutínio por parte dos senadores da comissão parlamentar de inquérito que investigará as ações do governo federal durante a pandemia. Mais do que uma omissão, que trabalha no limiar entre a incompetência e do cinismo, isso é perversão, com uma ação clara e consciente no sentido oposto a salvar vidas.

Para evitar interpretações que coloquem em dúvida esse modus operandi, a CPI contará com o caso do desmatamento na Amazônia para mostrar que não se trata de pura negligência, mas de um projeto de país violento e excludente, que encara a morte como efeito colateral aceitável de seus objetivos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL