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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Governo admite atraso na vacinação e empurra morte e desemprego para 2022

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

21/04/2021 21h05

É sempre bom quando uma autoridade reconhece que o governo que representa estava enrolando a população. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, fez isso ao comunicar, nesta quarta (21), que o fim da vacinação dos mais de 77 milhões de brasileiros do grupo prioritário passou de maio para setembro.

Isso significa, consequentemente, que a imunização completa do restante dos brasileiros só deve terminar em algum momento de 2022. Só ficaram surpresos com a notícia aqueles que estavam trancados em uma caverna - e sem acesso a Wi-Fi.

Considerando que é bem provável que a vacina para covid-19 tenha que ser renovada anualmente, devido às mutações do Sars-COV-2 (como ocorre com o vírus influenza, da gripe comum), há uma chance de que o fim da atual campanha de vacinação contra covid-19 conecte-se com a próxima.

O custo disso é muito grande, não apenas em termos de vidas que serão perdidas e pessoas que viverão com sequelas, mas também do desemprego, do fechamento de micro e pequenas empresas e da redução do crescimento econômico decorrente do fato de vivermos em um país com um vírus assassino em circulação.

"Tivemos uma janela de oportunidade no ano passado, quando as empresas queriam vender vacinas ao Brasil, mas a gente não comprou", avaliou à coluna a doutora em microbiologia e fundadora do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak. "Cerca de 70 milhões de doses da Pfizer teriam chegado ao país em dezembro de 2020, por exemplo, se tivéssemos aceitado um acordo."

O responsável por isso, vale lembrar, foi Jair Bolsonaro.

"Se você virar um jacaré, é problema de você. Se você virar Super-Homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou algum homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver isso", afirmou o presidente ao reclamar, no ano passado, que a Pfizer não se responsabilizava por efeitos colaterais.

Pura bravata. Diante das críticas de que não havia vacina suficiente enquanto outros países estavam avançados em imunização, o governo federal colocou o rabo entre as pernas e assinou, em março, o contrato encomendando 100 milhões de doses. O problema é que elas não chegarão agora, quando o país mais precisa.

Para a pesquisadora, esse número de 70 milhões ainda está "entalado na garganta" e deve ser um dos pontos principais da CPI da Pandemia do Senado Federal, que vai analisar as ações e omissões do governo federal durante a crise.

Questionada quando o Brasil deve estar imunizado contra a covid-19, Pasternak afirmou que é difícil fazer previsões porque está tudo em aberto, das datas de chegada e quantidades das doses encomendadas até a capacidade de produção de nossas plantas no Brasil.

"Estamos no escuro. Mas não precisaria ter sido assim. Estamos colhendo os frutos de tudo o que o governo não planejou e dos acordos que esnobou", afirma.

O Brasil ultrapassou, nesta quarta (31), 381 mil mortos, ao registrar 3.157 óbitos em 24 horas. No pior cenário projetado pelo Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação (IHME) da Universidade de Washington, podemos chegar a 653,8 mil mortes no dia 1º de agosto.

Isso se refere a uma situação em que os vacinados deixem de usar máscaras e voltem a adotar o mesmo nível de deslocamento que antes da covid - o imunizante te protege de desenvolver a doença, não de transmitir o coronavírus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL