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Leonardo Sakamoto

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Instituto vê risco de 3ª onda no Brasil e prevê 575 mil mortes até agosto

Paciente em leito de UTI destinado para infectados pela covid-19                              - XAVIER GALIANA / AFP
Paciente em leito de UTI destinado para infectados pela covid-19 Imagem: XAVIER GALIANA / AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/05/2021 12h40

O Brasil pode chegar a 575,6 mil mortes no dia 1º de agosto no cenário mais provável projetado pelo Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação (IHME) da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. No pior cenário, o país atingirá 688,7 mil óbitos no mesmo período. O instituto também avalia que é possível a ocorrência de uma terceira onda a partir do final de maio.

As estimativas, atualizadas neste sábado, apontam uma melhora no cenário mais provável (há quase um mês, o instituto previa 591,9 mil óbitos em 1º de agosto), situação em que as variantes conhecidas continuam a circular, mas o governo consegue aumentar a distribuição de vacinas.

E uma piora no cenário mais duro (neste caso, a previsão de mortes era de 653,8 mil há um mês). Ele se refere a um quadro em que os vacinados deixam de usar máscaras e voltam a adotar o mesmo nível de deslocamento que antes da covid. Vale lembrar que o imunizante te protege de desenvolver a doença, não de transmitir o coronavírus. O país atingiu, neste domingo (2), o total de 407.775 óbitos registrados.

"As projeções da Universidade de Washington estão bem precisas, pois a série histórica é estável. Até mesmo nossas insuficiências nas testagens estão refletidas", afirmou à coluna o epidemiologista Wanderson Oliveira, secretário de Serviços Integrados de Saúde do Supremo Tribunal Federal e ex-secretário nacional de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Ele lembra que a situação pode piorar se a população relaxar com os cuidados. E alerta para a possibilidade de já termos a circulação da variante da Índia no Brasil, que levou ao registro de mais de 400 mil casos em um único dia no país asiático.

Os sistemáticos atrasos no cronograma de vacinação por parte do Ministério da Saúde devido à falta de imunizantes podem alterar negativamente as projeções. Da mesma forma, quanto mais tempo o país vive uma situação de livre contágio, maior é a probabilidade de gerar variantes mais transmissíveis e mais violentas.

Já em um cenário mais otimista, em que 95% da população adota o uso de máscaras em público, projeta-se um número de mortes de 525 mil, segundo o IHME, frente a 531,6 mil de quase um mês atrás. Nessa hipótese, a população adota cuidados sanitários, incluindo as medidas de isolamento social que são atacadas por Jair Bolsonaro.

Neste domingo (2), manifestações de fãs e seguidores do presidente em diversas cidades pediram o fim de medidas de restrição contra a covid, além de defender um golpe militar, a destituição dos ministros do STF e o fechamento do Congresso Nacional.

Terceira onda de mortes

De acordo com o instituto, o Brasil pode viver uma terceira onda da pandemia a partir do dia 21 de maio, o que vai depender de suas ações e omissões até lá. No pior cenário, caso as medidas sanitárias sejam desrespeitadas e a vacina não venha na velocidade prometida, as mortes escalam e ultrapassam uma média de mais de 4,2 mil, atingindo um pico em 4 de julho.

O recorde de mortes registradas em 24 horas foi alcançado no dia 6 de abril, com 4.211, segundo o consórcio de veículos de imprensa. No dia 12 de abril, chegamos à maior média móvel de sete dias: 3.125 mortes. Ou seja, essa terceira onda, pode, na pior das hipóteses, ser pior do que a segunda.

No cenário mais provável, a taxa de mortes segue num platô alto, por volta das 2 mil por dia e depois começa a cair. E no cenário mais otimista, ele desaba a partir da terceira semana de maio, atingindo 586/dia em 1º de agosto.

"Acredito que a tendência natural é que o risco de apresentarmos uma nova 'onda' é factível. Considerando a velocidade de vacinação, o esgotamento social com as medidas não farmacológicas e a falta de comunicação do Ministério da Saúde, é natural que tenhamos dias difíceis pela frente", afirma Wanderson Oliveira.

"Há possibilidade deste padrão não se concretizar? Sim, mas a probabilidade é pequena e não acho que vá ocorrer. Mesmo que tenhamos um "platô" como projetado pela Universidade de Washington, nosso limiar é muito, muito elevado e incompatível com o aceitável' se isso existir", avalia.

Para os Estados Unidos, a Universidade de Washington projeta 598,9 mil mortos em 1º de agosto, sendo 617,7 mil para o pior cenário e 593,9 mil para um cenário com uso universal de máscaras. Ou seja, podemos encostar ou ultrapassar o país campeão em mortes, se a crise na Índia não levá-la ao topo do pódio antes.