PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Cortina de fumaça, tática 'E o PT?' será presente na CPI da Pandemia 

Protesto em Manaus contra atuação de Bolsonaro na pandemia - crise no Amazonas será investigada na CPI - Reuters/Bruno Kelly
Protesto em Manaus contra atuação de Bolsonaro na pandemia - crise no Amazonas será investigada na CPI Imagem: Reuters/Bruno Kelly
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/05/2021 21h10

Após o vice-presidente da CPI da Pandemia, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), citar Hitler no UOL Debate, desta segunda (3), dizendo que o responsável pelo morticínio da covid-19 no Brasil passaria para a História como o líder nazista passou, o senador Eduardo Girão (Podemos-CE) respondeu, trazendo o PT para a conversa.

"A história está mostrando o que governos anteriores fizeram com o país. Não vou nem citar aqui a questão de Mensalão e Petrolão. Mas a ajuda que o Brasil deu a ditaduras como a de Cuba, a da Venezuela, a de Moçambique, o dinheiro do povo brasileiro sendo jorrado por uma questão ideológica", afirmou. "Acredito que só esse governo ter tirado o PT do poder já fez papel histórico."

O que isso tem a ver com a pandemia de coronavírus e a discussão sobre a responsabilidade do atual governo federal pelas quase 409 mil mortes na pandemia? Nada.

Girão poderia ter rebatido Randolfe de outra forma, explicando o porquê das ações e omissões de Jair Bolsonaro não representarem, na sua opinião, uma política genocida.

Mas o candidato derrotado do governo à presidência da CPI preferiu adotar uma das táticas preferidas do bolsonarismo, que é usar o PT como coringa em uma discussão, o que causa impacto junto a antipetistas.

Se algumas pessoas acusaram Randolfe de Reductio ad Hitlerum, Girão certamente aportou no Reductio ad Lulam.

Estratégia semelhante foi adotada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que falou em audiência conjunta das comissões do Meio Ambiente e de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados, também nesta segunda.

Ao tratar dos cortes no orçamento do ministério, Salles disse que, apesar de três anos seguidos de queda sob Jair Bolsonaro, houve um talho maior no governo Dilma Rousseff (PT).

A questão é que o governo dela já foi duramente criticado, na época, por optar por um crescimento predatório a despeito de um desenvolvimento sustentável (ouvi alguém dizer "Belo Monte" aí?). Eu mesmo fui um dos críticos mais chatos, como pode ser constatado no arquivo desta coluna.

O que Salles faz agora é apontar para problemas de outro governo para jogar uma cortina de fumaça sobre os seus. Tanto que escapuliu de falar sobre a queda do delegado da Polícia Federal que realizou a maior apreensão de madeira da história

Ressalte-se, porém, que o governo Bolsonaro é imbatível e incomparável em termos de desmonte da fiscalização ambiental.

Ninguém conseguiu "passar a boiada", aproveitando as mortes da pandemia para desregulamentar o controle sobre crimes ambientais, tão bem como Salles. Como aqui já disse, ele é, na minha opinião, o ministro mais competente da Esplanada, cumprindo à risca tanto as pautas do chefe quanto a de pecuaristas, madeireiros e garimpeiros ilegais. E, claro, grileiros de terra.

O próprio Bolsonaro utilizou uma variação da estratégia neste sábado.

"Em anos anteriores, no dia Primeiro de Maio, o que mais víamos no Brasil eram camisas e bandeiras vermelhas, como se fôssemos um país socialista. Hoje temos prazer e satisfação de vermos bandeiras verde e amarelas, com homens e mulheres que trabalham de verdade e sabem que o bem maior que podemos ter na nossa pátria é a liberdade", afirmou o presidente no Primeiro de Maio, Dia dos Trabalhadores.

Ao invés de aproveitar a data simbólica para lançar uma política de geração de empregos formais (coisa que nunca fez), ele incentivou aglomerações de rua de seus seguidores, que pediram autogolpe militar, deposição de ministros do Supremo Tribunal Federal, fechamento do Congresso e cancelamento forçado das medidas de restrição por conta da covid-19.

Até porque ele não conta com tal política para mostrar, apenas um punhado de propostas para retirar ainda mais proteções à saúde e segurança dos trabalhadores. Então, dá-lhe guerra política e ideológica.

Além de jogar fumaça sobre suas ações e omissões, ao usar a estratégia "e o PT?", bolsonaristas reforçam os laços com seguidores mais fieis e com uma parcela da sociedade que abraçou o atual presidente, em 2018, por conta do antipetismo.

Resta saber se esse grupo ainda vai se satisfazer com a mesma argumentação após constatar como funciona este governo e, em 2022, engolir a seco mortes, desmatamento e desemprego.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL