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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro diz que lamenta morte de Paulo Gustavo, mas CPI prova o contrário

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/05/2021 13h43

Após outros governantes e políticos postarem suas condolências devido à morte do ator Paulo Gustavo, por complicações da covid-19, na noite desta terça (4), Bolsonaro fez o mesmo em suas redes sociais. Percebeu que o falecimento de uma pessoa tão querida por uma doença que ele ajudou a bombar, entraria na sua conta. Em tempos de CPI, o silêncio seria mais uma dor de cabeça.

Falando a apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, na manhã desta quarta, voltou a lamentar a morte do ator e de outras vítimas da doença. Contudo, enquanto a sua boca dizia uma coisa, seu corpo mostrava outra.

Sem usar máscara, tirou fotos e abraçou fãs, ignorando as recomendações sanitárias para evitar o contágio pelo coronavírus e, com isso, o adoecimento e morte de pessoas. Mostrou, dessa forma, que a consternação pela morte de Paulo Gustavo era para evitar críticas. Continuava sabotando o combate ao coronavírus.

Tanto que, horas depois, reclamou de jornalistas que informam que ele não usa máscaras em público: "Já encheu o saco isso". E defendeu as aglomerações de fãs, neste final de semana, que pediram um autogolpe militar. "Sabemos que o vírus mata, lamentamos as mortes, mas o povo foi às ruas!"

A morte de Paulo Gustavo foi mais um dos "efeitos colaterais" perversos da estratégia bolsonarista de enfrentamento ao vírus, como ficou claro pelos depoimentos dos ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich na CPI da Pandemia.

Nesta terça (4), Mandetta confirmou que, orientado por seus filhos, com doutorado em WhatsApp, e por assessores negacionistas, Bolsonaro perseguiu a imunidade de rebanho como solução. Ou seja, optou pela estratégia de intensificar o contágio pelo coronavírus para que a pandemia passasse mais rápido. O problema é que a busca pela imunidade de rebanho para uma doença causada por um vírus altamente letal traz, como consequência, morte em massa. Hoje, ultrapassamos 411 mil vidas perdidas e, dentre elas, a de Paulo.

Mandetta reafirmou o que já havia dito em setembro do ano passado: de que alertou o presidente por escrito, ainda no início da pandemia, de que aquele caminho levaria o país a 180 mil mortes no final do ano. Errou por pouco, uma vez que o país atingiu 195 mil óbitos em 31 de dezembro.

E, na manhã desta quarta, Teich confirmou à CPI da Pandemia que deixou o Ministério da Saúde porque não concordava com a determinação de Bolsonaro de impor o uso da cloroquina - remédio sem eficácia para a covid. Com a oferta de um "elixir mágico" pelo presidente, parte da população não se cuidou, o que ajudou a espalhar a pandemia.

Em dois dias de depoimentos na CPI já foi possível entender que se o presidente não tivesse provocado aglomerações desnecessárias, se não tivesse atacado governadores e prefeitos que adotaram quarentenas e lockdowns, se não tivesse promovido remédios inúteis para o combate à covid, se não tivesse atacado vacinas quando podia compra-las no ano passado, se não tivesse demorado em renovar o auxílio emergencial, o Brasil não seria hoje um dos cemitérios da doença no mundo.

Paulo Gustavo poderia estar aí, fazendo o que fazia de melhor: tornar nossa existência mais leve, o que fará falta nestes tempos sombrios. Mas meu primo também poderia estar cuidando do seu filho pequeno ao voltar do trabalho. E amigos meus talvez estivessem vivos para beber com eles num final de semana qualquer. Todos na casa dos quarenta e poucos anos. Todos com uma biografia interrompida por uma doença evitável se o governo fosse outro.

A falta de articulação federal levou a um combate capenga à covid e, portanto, a mortes. Mas o problema maior não foi o que ele deixou de fazer, mas o que efetivamente fez. É terrível a constatação de que se o Brasil fosse governado por uma caixa de sapatos, um pedaço de pau, um vidro de azeitonas ou mesmo um pequi roído teríamos perdido menos vidas para a covid-19. A cadeira vazia no Palácio do Planalto causaria menos estragos.

Se Bolsonaro realmente lamentasse mortes, como a de Paulo Gustavo, abandonaria a sabotagem que vem realizando. Mas o comportamento dele mostra que, na verdade, se importa mais com preservar a sua reeleição do que com vidas perdidas.

E baseado nas manifestações a seu favor deste final de semana, prometeu, na manhã desta quarta, que baixaria um decreto para barrar lockdowns nos Estados, fazendo uma ameaça velada ao Supremo Tribunal Federal: "Não ouse contestar, quem quer que seja". Ele sabe que não tem força para isso, mas precisa roubar o foco da CPI. E, para tanto, avisa que pode empurrar os brasileiros à força para o colo da morte.

Sua declaração válida e sincera é outra. Questionado por uma apoiadora por uma palavra aos enlutados, em 2 de junho de 2020, Bolsonaro disse:

"Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo".