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Leonardo Sakamoto

Em redes sociais bolsonaristas, 'morreu pouco' na Chacina do Jacarezinho

06 mai. 2021 - Mulher chora em hospital após uma operação na comunidade do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, deixar pelo menos 25 pessoas mortas - Reginaldo Pimenta/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
06 mai. 2021 - Mulher chora em hospital após uma operação na comunidade do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro, deixar pelo menos 25 pessoas mortas Imagem: Reginaldo Pimenta/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

08/05/2021 11h28

"Morreu foi pouco." Enquanto parte do Brasil e do mundo estava chocada com as 28 mortes decorrentes da Chacina do Jacarezinho, a mais letal ação policial da história do Rio, ocorrida nesta quinta (6), grupos bolsonaristas em redes sociais e aplicativos de mensagens celebravam as 27 baixas de civis, lamentando a do inspetor André Frias.

Entre as mensagens mais frequentes, com alguma variação em sua redação, estavam as que ignoravam a presunção de inocência, afirmando que se alguém morreu pelas mãos da polícia é porque era culpado de algo.

Postagens como "se levou bala, era bandido" e "a esquerdalha está chorando pelos bandidos, mas não pelo herói morto" vão ao encontro do que afirmou o vice-presidente, general Hamilton Mourão, nesta sexta (7), de que os mortos eram "tudo bandido", sem apresentar evidências disso.

E do que disse o delegado Felipe Curi, do Departamento Geral de Polícia Especializada, na coletiva à imprensa após a ação ao falar dos mortos. "Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante." Tanto Mourão quanto Curi mostraram consternação apenas pelo trágico assassinato do inspetor Frias.

Na avaliação de Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, há uma inversão não apenas do ônus da prova, mas também nos rótulos adotados. "Ter levado uma bala torna uma pessoa automaticamente suspeita. Morrer na mira da polícia é um atestado de suspeição", avalia. Ou de culpa.

Declarações de autoridades acabam legitimando e reforçando o discurso das redes sociais, que amplificam a mensagem de que a bala da polícia é que torna alguém suspeita de um crime. A comunidade do Jacarezinho, que protestou contra a ação nesta sexta, discorda e há denúncias de que há óbitos de pessoas que não estavam em confronto com a polícia.

Werneck lembra que a função das forças de segurança é investigar, prender e levar à Justiça as pessoas sobre as quais pesarem evidências de envolvimento com crimes. Mas o que ocorreu foi "execução sumária".

As mensagens que circulam em grupos bolsonaristas vão ao encontro do que o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) chama de "projeto de sociedade miliciana", em que a Justiça é trocada pelo justiciamento, ignorando suas funções de agentes de segurança descritos pela diretora da Anistia e batendo de frente com a Constituição de 1988.

Na avaliação do deputado, quando um policial leva um tiro e morre no início de uma operação, ela deveria ser imediatamente cancelada sob o risco de se transformar em vingança de seus colegas contra a comunidade. Para ele, uma sociedade em que a concepção de segurança pública está imersa em uma cultura miliciana, como a do Rio, não há nem suspeitos, só culpados.

Outro tipo de mensagem que circulou nessas redes é a que afirma que se estivessem trabalhando, essas pessoas não estariam mortas.

O que é bizarro. A ação começou as 6h da manhã, horário em que muitos estão indo para o trabalho. Há famílias de trabalhadores que ficam em casa enquanto eles estão fora. E estamos em uma pandemia, com recomendação para que todos permaneçam em suas residências - razão que levou o Supremo Tribunal Federal a limitar operações em comunidades no Rio.

A ideia de que apenas "vagabundos" foram mortos, presentes em parte das mensagens, reafirma o preconceito social que reduz os mais pobres à força de trabalho, ignorando que eles também têm direito a uma vida social e que devem ser protegidos pelo Estado para exercê-lo.

E indica que uma parte do Brasil mantém a percepção de que quem não está trabalhando é vagabundo. Não à toa, jovens negros quando são abordados em batidas policiais ainda usam a justificativa do "sou trabalhador", a mesma que seus avós também empregavam ao mostrar a carteira de trabalho na rua para provar que não eram bandidos. A explicação simples de que são "cidadãos" e que têm direitos, infelizmente, não é levada a sério.

Comportamento é semelhante às 'celebrações' pelos 25 anos da Chacina da Candelária

No dia em que a Chacina da Candelária completou 25 anos, em 2018, esta coluna registrou muitos comentários nas redes sociais de pessoas afirmando que as crianças "morreram porque mereceram". E reclamando das reportagens que relembraram a data por "chorar a morte de vagabundos". E enalteceram os policiais envolvidos, lembrando que "mataram foi pouco". Os mesmos argumentos das postagens de agora.

Isso reforça que Bolsonaro é fruto dessa cultura do justiciamento, que subverte Justiça e instituições.

Chacinas, urbanas e rurais, não raro são encaradas como um serviço sujo que parte da sociedade deseja. Uma "limpeza social" das "classes perigosas" e dos "entraves para o progresso".

Mais de 50 crianças e adolescentes em situação de rua costumavam dormir na praça da Igreja da Candelária, região central do Rio de Janeiro. Na madrugada de 23 de julho de 1993, policiais militares, em horário de folga, atiraram contra nove deles, com idades entre 11 e 20 anos. Dos atingidos, apenas um sobreviveu.

Sete homens chegaram a ser acusados pela chacina. Três foram absolvidos e quatro, todos policiais, foram condenados. Foram para a cadeia até que um foi indultado e outro teve a pena extinta. O terceiro está foragido.

Depois disso, o Estado não teve competência para garantir uma vida melhor ao restante dos jovens que dormiam sob as luzes da Candelária. Muitos sobreviventes morreram assassinados, vítimas do HIV, outros serviram ao tráfico, foram empurrados à prostituição e há os que desapareceram. Sandro, o sequestrador morto pela polícia no caso do ônibus 174, que inspirou um filme, escapara daquele dia na Candelária.

Ao invés de pedir ações estruturais que melhorem a qualidade de vida nas comunidades, garantam educação e emprego aos jovens, remunerem bem e garantam dignidade às forças policiais, entre outras medidas preventivas que podem garantir um país mais seguro, parte da sociedade, através das redes sociais, defende linchamento, pena de morte, crianças na cadeia, murar comunidades e mais armas.

Parece um pesadelo do qual não conseguimos acordar. E parte da sociedade, pelo que pode ser visto nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, definitivamente não quer acordar.