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Leonardo Sakamoto

CPI quer saber quem pagou para bombar 'mentira da eficácia da cloroquina'

Reuters
Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

11/05/2021 07h52

A CPI da Pandemia deve se debruçar, a partir desta semana, no financiamento de campanhas de desinformação que defendiam a eficácia da cloroquina, ivermectina e outros produtos que a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma serem inúteis contra a covid-19.

Jair Bolsonaro foi o principal garoto-propaganda desses medicamentos, oferecendo-o em suas lives, em discursos oficiais e até para as emas dos jardins do Palácio do Alvorada.

Contudo, senadores da comissão afirmam que campanhas bancadas pelo governo federal e por empresários próximos a ele também foram fundamentais para disseminar a mentira de que o uso do "kit covid" garantiria "tratamento precoce". Querem saber quem estava envolvido na difusão da "mentira da eficácia da cloroquina" e quanto custou o que um deles chamou de "marketing da morte".

Reportagem da Agência Pública apontou, em março, que R$ 1,3 milhão em recursos da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) e do Ministério da Saúde foram usados para bancar influenciadores a fim de defenderem o "atendimento precoce" no início do ano.

O depoimento do ex-chefe da Secom, Fabio Wajngarten, está previsto para esta quarta (12).

A CPI da Pandemia também espera receber informações por parte de outra comissão parlamentar de inquérito, a das Fake News, para ajudar nessa linha de investigação.

Além da publicidade oficial, senadores querem verificar se dinheiro público foi usado para anunciar em páginas que atestam a eficácia desses produtos contra a covid-19, ou seja, veiculam desinformação.

E desejam saber se empresários ligados a Jair Bolsonaro, a pedido do governo, também investiram nessas páginas, impulsionaram conteúdos em redes sociais e bancaram o disparo em aplicativos de mensagens com a mentira de que esses produtos funcionam e são seguros contra a covid.

Cloroquina tem sido a 'estrela' da CPI até agora

Em depoimento à CPI, o ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, afirmou que a gota d'água para a sua saída do cargo foi a discordância com a política de Bolsonaro para a cloroquina. O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta também afirmou à comissão que se posicionou contra a promoção do produto pela falta de evidências científicas.

Sob o comando do general Eduardo Pazuello, representantes do Ministério da Saúde pressionaram a Prefeitura de Manaus a distribuir hidroxicloroquina e ivermectina como tratamento precoce para a covid em janeiro. Enquanto isso, manauaras com covid morriam sufocados nos hospitais por falta de fornecimento de oxigênio. Pazuello alegou uma desculpa para não ir ao depoimento na CPI, que foi adiado para a semana que vem.

Nesta terça (11), a comissão recebe o presidente da Anvisa (Agência Brasileira de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, e a questão da eficácia da cloroquina será um dos pontos principais de questionamento.

Na avaliação de senadores ouvidos pela coluna, o governo Bolsonaro usou a cloroquina para convencer a população a voltar ao trabalho, vendendo-o como um tratamento rápido e barato para a doença, uma espécie de "elixir mágico". O que ajudou a minar o isolamento social e aumentar o número de mortes.

A coluna conversou com dois médicos que estão na linha de frente, um de um hospital público do interior de São Paulo e outro de um hospital particular na capital paulista. Ambos falaram de pacientes que chegaram ao pronto-socorro com baixa oxigenação e pulmões comprometidos após terem se automedicado por dias com o "kit covid".

A demora no atendimento, que custou a vida de alguns deles, ocorreu porque os pacientes investiram no "tratamento precoce".

Há registros de pacientes com comprometimento de órgãos como o fígado por conta do uso equivocado desses produtos e de mortes após seu uso contínuo para se "prevenir" da doença.