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Leonardo Sakamoto

Política é pauta 'mortal' para jornalistas na América Latina, segundo ONG

Luis Alvarenga/Getty Images
Imagem: Luis Alvarenga/Getty Images
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

13/05/2021 18h46

A América Latina é a região com o maior número de jornalistas mortos em função do exercício de sua profissão. Apenas quatro países - Brasil, Colômbia, México e Honduras - foram palco de 139 assassinatos de profissionais de imprensa na última década, o que representa 80% de toda a região. Os dados são de levantamento divulgado, nesta quinta (13), pela organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras.

"Quando um país é palco de uma situação estrutural de violência contra a imprensa, não é apenas a liberdade de expressão individual desses jornalistas que é afetada, mas também o direito coletivo à informação de toda uma sociedade", diz o relatório.

A função mais perigosa foi a de repórter e repórter fotográfico/cinematográfico, que contou com metade das mortes.

E as coberturas mais "letais" foram a de crime organizado (ao menos 46%), política (ao menos 39%), corrupção (ao menos 23%) e assuntos locais (ao menos 21%). O total dá mais de 100% porque há profissionais que cobriam mais de uma área ao mesmo tempo.

De acordo com a Repórteres Sem Fronteiras, organização com sede na França, cujo objetivo é defender a liberdade de imprensa, em 92% dos casos analisados, os agressores visaram um jornalista específico. E em apenas 7,2% os profissionais de imprensa foram atingidos de forma não intencional.

A maioria (58%) foi morta perto de casa ou no trajeto para o trabalho, quando eram vigiados por seus algozes. Em 23% dos casos, as vítimas foram sequestradas e, então, executadas. Parte destes foi mutilada antes de ser morta.

Entre os que foram mortos, 56% viviam em cidades com menos de 100 mil habitantes, 27% entre 100 e 500 mil e 17% com mais de 500 mil habitantes, mostrando que se é perigoso ser jornalistas nos grandes centros é ainda mais fora deles.

A Repórteres Sem Fronteiras lembra que, infelizmente, a proteção por parte do Estado ainda é rara na região. Pelo menos 45% das vítimas já haviam recebido ameaças publicamente, porém apenas 7,2% contavam com medidas de proteção.

"O assassinato de jornalistas é apenas a ponta do iceberg de uma espiral de violência contra a imprensa. Uma prática que faz parte de um cenário mais amplo de ameaças permanentes e de violência estrutural na região, que atinge de maneira sistemática defensores e defensoras de direitos humanos e todos que trazem a público denúncias contra grupos poderosos - seja o poder político formalmente instituído, seja o poder paralelo de organizações criminosas", conclui o relatório.