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Leonardo Sakamoto

Após agir como fantoche de Bolsonaro, Pazuello não culpará o ventríloquo

Jair Bolsonaro e o general Eduardo Pazuello - Reprodução/Youtube
Jair Bolsonaro e o general Eduardo Pazuello Imagem: Reprodução/Youtube
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

15/05/2021 11h43

Eduardo Pazuello poderá ficar em silêncio sobre si mesmo ao depor na CPI da Pandemia na próxima quarta (19). O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, ressaltou, porém, que ele terá que revelar o que sabe sobre terceiros quando questionado.

A questão é que, tendo sido um fantoche de Jair Bolsonaro, o verdadeiro responsável pela bizarra estratégia do governo federal diante da covid-19, ele está umbilicalmente conectado ao destino do presidente. Tem consciência de que foi o executor da necropolítica bolsonarista e deverá ficar em silêncio inclusive sobre o seu ventríloquo.

Poderia pleitear uma delação premiada como esta coluna sugeriu em 15 de março. Mas já provou que é um general com déficit crônico de coragem e dignidade. E não apenas por ter fugido do depoimento da CPI há duas semanas, usando a tosca desculpa de que teve contato com duas pessoas contaminadas por covid. Tosca porque ele havia sido flagrado sem máscara passeando em um shopping center dias antes.

Como esquecer o bafafá de 21 de outubro do ano passado, quando foi desautorizado pelo presidente, que mandou cancelar o protocolo de intenções de compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, anunciado no dia anterior por ele em reunião com governadores?

Qualquer militar com uma coluna vertebral teria pego o quepe e voltado à caserna. Mas diante do barulho gerado, Pazuello se prestou a um vídeo ridículo ao lado de Bolsonaro, afirmando "senhores, é simples assim: um manda e o outro obedece. Mas a gente tem um carinho, entendeu?"

A surrada justificativa do "estava apenas cumprindo ordens" não colou em Nuremberg, não cola em Haia e certamente não será aceita pelo STF, ainda mais em se tratando um general - que é muito diferente de um recruta. Pelo menos deveria ser, principalmente quando o que está em jogo são ordens responsáveis pela morte de milhares de pessoas.

Após deixar milhões de testes para covid-19 vencerem em um depósito do governo em Guarulhos (SP), apresentar um plano picareta para a distribuição da vacina e não garantir a aquisição de imunizantes em número suficiente no ano passado, Pazuello, passivamente, viu Manaus sufocar.

Apesar de ter entrado para o anedotário mundial, Maria Antonieta, rainha da França no século 18, nunca disse "se o povo não tem pão, que coma brioches". Também não há registro de que Pazuello tenha dito: "se o manauara quer oxigênio, que engula cloroquina". Mas foi o que, de fato, fez.

Em um dos lances mais bizarros desde que começou a pandemia, o Ministério da Saúde quis distribuir, na capital amazonense, hidroxicloroquina e ivermectina, remédios usados contra malária, lúpus e infestação por vermes, como tratamento precoce para a covid. Poderia ter garantido o estoque de oxigênio, mas optou por forçar para que aceitassem "feijões mágicos".

Se o governo federal, desde o início da pandemia, tivesse assumido a articulação no combate à doença, saberia quando Estados e municípios precisariam de insumos. Assim, problemas seriam evitados e pessoas não morreriam. Mas isso bateria de frente com a estratégia do presidente da República de acelerar o contágio para que a população alcançasse a imunidade de rebanho e o coronavírus parasse de circular.

Esses remédios não funcionam para a covid-19, mas são eficazes para empurrar pessoas de volta ao trabalho por acreditarem na existência de uma cura. O efeito colateral disso foram mortes, muitas mortes. Para ser exato, 432.785 até agora.

E o salto de internações e óbitos em Manaus não foi uma situação isolada, mas o prenúncio de uma larga colheita de óbitos em todo o país.

Eduardo Pazuello não surgiu de geração espontânea a partir de uma farda vazia num armário. Foi Jair Bolsonaro quem o colocou lá para ser seus olhos e sua voz e obedecer sem questionar, uma vez que os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich não se prestaram a esse papel ridículo.

Por saber que é uma parte do corpo do presidente, Pazuello deve agir como os dois fossem um só na CPI.

Na principal guerra da história do Brasil, o general à frente da Saúde cumpriu as ordens de seu comandante, o presidente, permitindo que o inimigo matasse o próprio povo. Em qualquer lugar, isso é alta traição. Por aqui, o bolsonarismo chama de sinal de bravura.