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Leonardo Sakamoto

Datafolha indica que 14% agem como rebanho ao confiar 100% em Bolsonaro

15.05.2021 -- Bolsonaro chega de cavalo a protesto de apoiadores, em Brasília - Reprodução/Twitter
15.05.2021 -- Bolsonaro chega de cavalo a protesto de apoiadores, em Brasília Imagem: Reprodução/Twitter
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/05/2021 09h38

Há um naco de 14% da população, segundo a última pesquisa Datafolha, que acredita em tudo o que Jair Bolsonaro diz. Esse grupo vive em uma realidade paralela onde há a TV Globo é uma trincheira comunista, universidades são locais de produção em larga escala de maconha, indígenas são os responsáveis por destruir a Amazônia e a vacina da Pfizer pode transformar alguém em jacaré.

Esse grupo também acredita que a covid-19 é apenas uma gripezinha, que foi inventada pela China para uma guerra econômica, que cloroquina e ivermectina são a cura precoce que os grandes laboratórios querem esconder, que máscara e isolamento social são coisa de frouxo e que os números de óbitos estão inflados.

Só para efeito de comparação: entre a população em geral, 50% não confia nunca nas declarações de Bolsonaro e 34% confia apenas às vezes.

Esses 14% batem com aquilo que os levantamentos do Datafolha vêm apontando como o tamanho do bolsonarismo-raiz, grupo de seguidores incondicionais do presidente. Para quem acha isso pouco, saiba que isso representa mais de 29,5 milhões de pessoas. É daí, por exemplo, que brotam muitos dos golpistas que defendem que Jair dê um autogolpe com a ajuda das Forças Armadas.

Esse grupo estava com ele antes de o lavajatismo tornar-se aliado conjuntural do bolsonarismo. Parece não se importar com as rachadinhas dos salários de servidores públicos que atuavam nos gabinetes da família - pelo contrário, acham justo, afinal os Bolsonaro trabalham tanto pelo país. E não apenas consideram Fabrício Queiroz um injustiçado, mas veem nele um instrumento entregue por Deus para ajudar Jair Messias em sua missão.

Contudo, há outro grupo também interessante a ser analisado. Entre o 24% da população que considera o governo Bolsonaro ótimo ou bom, 48% acredita sempre em Jair, 47% confia às vezes e 5% nunca confia. Ou seja, parte dos que o aprovam sabe que ele mente, mas não se importa.

Nesses grupos, estão inseridos aqueles que veem este governo como uma oportunidade de passar por cima de regras e leis que tentam limitar a agressividade do capital. Empresários e investidores, que se beneficiam da política de terra arrasada do governo e celebraram quando o licenciamento ambiental foi queimado na Câmara dos Deputados na semana que passou. São sócios do regime e, portanto, corresponsáveis pelas mortes dele decorrentes.

Há também aqueles que defendem que o presidente deve usar todas as "armas" disponíveis, o que inclui boatos, notícias falsas e outras formas de desinformação, para combater o "inimigo", que inclui a esquerda, os ambientalistas, feministas, moradores de comunidades pobres, populações tradicionais, grupos LGBTQIA+, religiões de matriz africana... Ou seja, manter esse povo que acha que tem direitos iguais em seu devido lugar.

As mentiras de Bolsonaro são vistas por esse grupo como justificáveis instrumentos das guerras política e cultural que o bolsonarismo vem travando. Para eles, não importa se o presidente mentiu e agravou uma pandemia que já matou mais de 435 mil brasileiros. Mas se, ao final a fictícia mamadeira de piroca não for incorporada no material escolar.