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Leonardo Sakamoto

Morte de Covas entrega SP a desconhecido e lembra que 'vice' precisa acabar

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/05/2021 10h02

Após lutar bravamente contra um câncer, o prefeito Bruno Covas faleceu, neste domingo (16), aos 41 anos. A interrupção trágica da vida de um político em ascensão, com muitos anos de contribuição à sociedade pela frente, deve ser lamentada. Toda a solidariedade à família e amigos.

Covas deixa órfãos um filho pequeno e uma cidade, que o reelegeu em novembro do ano passado. Agora, São Paulo vai descobrir que também votou em um vice-prefeito conservador e o nome dele é Ricardo Nunes.

A agressividade do câncer era conhecida, mas a sua sobrevida se tornou um tabu na eleição municipal. Bruno Covas foi extremamente transparente quanto ao tratamento e nunca se negou a responder qualquer coisa sobre sua condição, sei disso por experiência própria. O oposto do presidente da República, que esconde idas ao hospital e só revelou exames de covid-19 após ordem da Justiça.

Mas uma parte da sociedade e da imprensa blindaram sua campanha, rechaçando a questão "E se o prefeito não conseguir terminar o novo mandato?"

A questão sobre a saúde do candidato e agora prefeito teria causado menos impactos à administração da maior cidade do país caso o anacronismo político chamado "vice" tivesse sido removido de nosso ordenamento jurídico.

Um prefeito, governador ou presidente não precisaria mais transferir o cargo ao se ausentar do país porque pode se manter conectado e governar à distância. Mesmo ausências por conta de problemas de saúde poderiam ser resolvidas com o presidente do parlamento municipal, estadual, distrital ou nacional assumindo o lugar momentaneamente.

Na prática, o cargo de vice serve apenas para a composição partidária na campanha eleitoral. Além da possibilidade de sermos governados por um programa que não foi votado, uma vez que a experiência mostra que, passado um tempo, vice sentem-se desobrigados a seguirem linhas apresentadas na campanha, muitos deles são fonte inesgotável de instabilidade.

Alguns até ajudam no impeachment da cabeça de chapa.

O ideal seria que em caso de cassação, renúncia ou morte, uma nova eleição fosse realizada de forma direta para que alguém, que se apresente à discussão pública, receba a chancela popular ao invés de pegar carona.

Considerando que Covas permaneceu menos de quatro meses neste novo mandato, os paulistanos serão governados até 2024 por Nunes, ex-vereador pelo MDB, mesmo sem ter ideia de quem ele seja ou saiba o que pensa para a cidade. Até porque ele não tentou se fazer conhecido.

O ex-vereador passou a maior parte da campanha escondido, negando convites de sabatinas, para evitar tratar de denúncias sobre o seu envolvimento na máfia das creches e sobre um episódio de violência doméstica. E também sobre opiniões conservadoras que contrapõe com Covas, como o apoio ao movimento Escola Sem Partido.

Dizer, portanto, que 3.169.121 pessoas sabiam que não votaram apenas no prefeito, mas em ambos, no segundo turno de novembro, por mais que seja correto do ponto de vista legal, é um insulto à inteligência.

Um deputado tucano de São Paulo lembrou à coluna que a responsabilidade por isso é do governador João Doria, que quis trazer o MDB para perto de olho em sua candidatura à Presidência da República no ano que vem. "O futuro de São Paulo foi rifado em uma estratégia eleitoral incerta que interessa apenas ao governador", afirma.

E que, a partir de agora, o PSDB dorista vai tentar esconder isso, vendendo a narrativa de que a ideia de Nunes foi do próprio prefeito a fim de tentar mantê-lo comprometido com o projeto eleito e com a campanha presidencial do governador no próximo ano. Vão cobrar publicamente do vice a "lealdade" a Covas.

O movimento se ampara no capital social conquistado pelo prefeito durante a campanha. Como explicou um outro deputado tucano, a imagem de um político jovem que mesmo gravemente doente cuidou de outras pessoas na pandemia ajudou a reelege-lo. E vai continuar coroando sua biografia, o que pode fazer com que Ricardo Nunes não mexa no primeiro escalão do governo por um tempo.

A coluna apurou junto a pessoas que integram a gestão de Bruno Covas e vereadores paulistanos da base do governo que Ricardo Nunes também não tem tamanho político, nem grupo forte para impor uma linha, pelo menos por enquanto.

E citam três forças que devem disputar influência sobre a administração municipal: o MDB, representado pelo ex-presidente Michel Temer e pelo deputado federal Baleia Rossi, presidente do partido; o presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (DEM); e o PSDB.

Passado o momento de comoção e de promessas de que o projeto de Bruno continuará sendo executado, a cara da nova administração paulistana será fruto da disputa ou da composição entre as três forças.

"O MDB estava convidando gente do interior para ocupar cargos na capital", afirma um dos vereadores ouvidos. "O grosso do PSDB no governo municipal não é da estrutura do partido, mas de pessoas de confiança de Bruno. Devem ser trocados em algum momento."

Um tucano afirma que Doria irá tentar manter a influência sobre Nunes e, no limite, pode tentar convencê-lo a se filiar ao PSDB. O que provocaria outros problemas.

Horas antes do quadro de saúde de Covas se tornar irreversível, o governador paulista levou o seu vice, Rodrigo Garcia, do DEM para o PSDB. O movimento confirma Garcia como pré-candidato tucano ao governo paulista e está diretamente relacionado com a preparação do terreno para Doria em 2022.

Isso irritou tanto o presidente dos Democratas, ACM Neto, partido que agora está na órbita de Bolsonaro, quanto Geraldo Alckmin, que analisa a possibilidade de disputar o Palácio dos Bandeirantes. Aliados do ex-governador falam em "golpe" e dizem que ele deve procurar outro partido, como o PSD, de Gilberto Kassab.

A trágica morte de Bruno deve mudar as prioridades na cidade, apesar da direção da mudança ainda ser nebulosa. E por estarmos falando de uma capital com mais habitantes e orçamento que a grande maioria dos estados do país, também mexerá nas peças no tabuleiro político nacional.

Bruno combateu o bom combate, terminou a corrida, guardou a fé. Que ele possa descansar e sua família ser confortada. E que São Paulo seja tratada com respeito.

Errata: o texto foi atualizado
A coluna cometeu um erro 'ufanista' afirmando que a capital paulista, com mais de 12 milhões, é maior do que realmente era. A população do município, na verdade, é menor que a do Estado de São Paulo, mas também de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e da Bahia.