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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro usa falso debate sobre mortes para encobrir inflação nas alturas

Cruzes no cemitério Parque Taruma em Manaus durante a pandemia da covid-19 - Bruno Kelly/Reuters
Cruzes no cemitério Parque Taruma em Manaus durante a pandemia da covid-19 Imagem: Bruno Kelly/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

10/06/2021 11h38

A inflação atingiu seu maior valor para um mês de maio desde 1996, com o IPCA acumulando 8,06% em 12 meses - o que vem tornando os pobres ainda mais pobres e aumenta a fome. Ao invés de dar uma explicação decente aos trabalhadores, Jair Bolsonaro desviou o foco do debate público, nesta quarta (9), para outro número: as 480 mil mortes por covid-19, que ele julga inflacionado artificialmente, sem apresentar uma mísera prova.

E não só. Em um culto em uma igreja evangélica em Anápolis (GO), ele mentiu ao dizer que as vacinas aplicadas na pandemia estão em fase experimental e não têm "comprovação científica", mentiu sobre a eficácia de remédios ineficazes contra a doença, mentiu ao afirmar que venceu no primeiro turno de 2018 e que a eleição foi fraudada, insinuou mais uma vez que o coronavírus foi liberado propositadamente pela China e atacou os membros da CPI da Covid.

Bolsonaro chegou a tocar no tema da inflação nesta quarta, mas apenas para usá-lo como justificativa para atacar quarentenas e lockdowns. E, novamente, buscou terceirizar a sua responsabilidade. "Tem inflação em alimentos, sim, não vou negar. Estamos, agora, tentando diminuir o preço do milho. Vai atingir diretamente a galinha, o ovo. De onde vem isso aí? Da política do 'fica em casa, que a economia vem depois'. Não é isso?", afirmou a apoiadores em frente ao Palácio do Alvorada.

É representativo que o presidente tenha falado sobre a redução no preço do ovo, porque o alimento se tornou o refúgio das famílias brasileiras desde que o custo da carne bovina explodiu sob o seu governo. Estudo da Universidade de Berlim apontou que o ovo foi o alimento com maior aumento no consumo pelos brasileiros na pandemia, com 18,8%. O consumo de carne teve queda de 44%.

O que não é difícil de entender diante dos preços. De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), divulgado na terça (8), o valor médio do quilo da carne bovina de primeira aumentou nas 16 capitais avaliadas em maio em relação a abril. Salvador (6,09%), Curitiba (5,70%), Florianópolis (4,76%) e Vitória (4,57%) tiveram os maiores aumentos.

A carne, claro, não está só. O óleo de soja e o café, por exemplo, aumentaram de preço em 15 capitais em maio: Curitiba (12,75%), Porto Alegre (4,95%), Campo Grande (3,33%) e Florianópolis (3,00%) estiveram à frente na subida do óleo; João Pessoa (5,07%), Fortaleza (4,52%), Brasília (3,90%) e Curitiba (3,78%) no do pó de café.

O Dieese também divulgou que a cesta básica aumentou, no mês de maio, em 14 das 16 capitais analisadas. As maiores altas foram registradas em Natal (4,91%), Curitiba (4,33%), Salvador (2,75%), Belém e Recife (1,97%). A cesta mais cara foi a de Porto Alegre (R$ 636,96), seguida pelas de São Paulo (R$ 636,40), Florianópolis (R$ 636,37) e Rio de Janeiro (R$ 622,76).

Se no primeiro semestre do ano passado ele era de R$ 600, com o pagamento de R$ 1200 para mulheres que chefiam sozinhas suas famílias, passando para R$ 300/R$ 600 no segundo semestre, o benefício agora é de R$ 150 e R$ 250, pagando R$ 375 a mães solo. O ministro da Economia, Paulo Guedes, previu, também nesta quarta, que o auxílio emergencial vá, pelo menos, até setembro. O problema é o valor, insuficiente.

Piso do auxílio emergencial não compra 25% da cesta básica em quatro capitais

O piso do auxílio emergencial não compra nem 25% da cesta básica em Porto Alegre, São Paulo, Florianópolis e Rio de Janeiro. Com benefício menor, desemprego em inflação nas alturas, os brasileiros estão se virando, trocando alimentos, alimentando-se com menos ou simplesmente não comendo mesmo. O valor poderia ser maior, mas o governo não quis.

Por fim, comparando maio de 2020 e maio de 2021, o preço da cesta subiu em todas as capitais que fazem parte do levantamento. As maiores altas: Brasília (33,36%), Campo Grande (26,28%), Porto Alegre (22,82%) e Florianópolis (21,43%).

O pacote de mentiras do presidente acabou ajudando a reduzir o espaço nos aplicativos de mensagens e nas redes sociais para o debate sobre a situação calamitosa enfrentada por conta do aumento de preços aliado ao desemprego.

Vale lembrar que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua aponta que, no primeiro trimestre do ano, 14,7% da população procurava trabalho, mas não encontrava, o que equivalem a 14,8 milhões de pessoas.

Na frente do Alvorada, ele aproveitou para culpar as políticas de isolamento social pelo fechamento do comércio e a destruição de empregos. Foi ele, contudo, que estendeu a duração da pandemia ao sabotar a compra de vacinas, o distanciamento social, o uso de máscaras, as quarentenas e promover remédios sem eficácia. Poderíamos estamos todos vacinados e na rua se Jair tivesse atendido as ofertas da Pfizer e do Instituto Butantan.

Enquanto conta mentiras sobre a pandemia, que colocam em risco a vida das pessoas que nele acreditam, ele esconde sua responsabilidade sobre o caos sanitários instalado no país. E aproveita para tirar o foco do debate sobre o aumento no preço da comida. O que mostra que o presidente é competente em criar novas formas de produzir cortina de fumaça. Pena que o mesmo não possa ser dito sobre garantir alimento na mesa.