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Leonardo Sakamoto

Ataque de Bolsonaro à máscara reforça mentira de que STF não o deixa agir

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

11/06/2021 11h27

Após atuar como um Jim Jones pandêmico, nesta quinta (10), declarando que "um tal de Queiroga" estava preparando um "parecer visando a desobrigar" o uso de máscara por pessoas que já haviam pegado covid ou tomado a vacina, Jair Bolsonaro afirmou, um dia depois, que "quem decide na ponta da linha é governador e prefeito".

Bolsonaro é tosco, mas não politicamente burro. Ele sabe que os decretos estaduais e municipais tornariam sem efeito qualquer parecer, recomendação ou decreto federal que queira tornar desnecessário o uso de máscaras. Mesmo assim, agiu como se a decisão só dependesse dele.

Em abril do ano passado, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a competência concorrente de estados, Distrito Federal, municípios e União no combate à covid-19. Traduzindo: todos podem e devem participar da elaboração de execução da política contra a pandemia.

Desde então, Bolsonaro, que desejava do STF a autorização para impedir quarentenas e lockdowns, vem espalhando a mentira de que a corte decidiu que o combate ao coronavírus cabe apenas a governadores e prefeitos. E a ele teria restado apenas o repasse de recursos para as ações.

Com isso, ele vem terceirizando a responsabilidade por mortos e desempregados. E, buscando a estratégia de imunidade de rebanho, negou-se a comprar vacinas no ano passado, defende remédios sem eficácia, promove aglomerações e tem atacado, como ontem, o uso da máscara.

Falando para os seus fãs em frente ao Palácio do Alvorada, o presidente reforçou esse entendimento nesta sexta: "Eu não apito nada, né? Segundo o Supremo, quem manda são eles. Mas nada como você estar em paz com a sua consciência".

Não tenham dúvidas que ele usará reações tanto à sua declaração quanto à tentativa de desobrigar o uso de máscaras para reforçar a mentira de que o STF o alijou do processo decisório sobre a pandemia. De olhos na montanha de mortos, que deve alcançar meio milhão nos próximo dias, ele precisa reforçar justificativas para tirar o corpo fora.

Além dessa dimensão, a declaração estapafúrdia e criminosa desta quinta teve múltipla serventia.

Ajudou a sabotar os esforços de quem combate a pandemia, empoderou o naco negacionista de seus seguidores, colocou a população em risco ao atacar uma das únicas formas de se proteger, uma vez que metade do país já estaria completamente vacinada, neste momento, se ele tivesse aceitado a oferta da Pfizer e do Instituto Butantan para o fornecimento de doses ainda no ano passado.

Mas também serviu para cutucar o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que reconheceu que a cloroquina não tem eficácia contra a covid-19 em sua segunda visita à CPI da Covid.

E para jogar uma cortina de fumaça sobre o avanço das investigações da comissão sobre as relações incestuosas entre o presidente e os empresários que produzem cloroquina. A fase de "seguir o dinheiro" da CPI pode ser bastante comprometedora para Bolsonaro.

Pipocam pelo Brasil casos de pessoas que se negam a usar máscara em ambientes públicos e privados. Algumas até fazem ameaças com armas de fogo, que se tornaram facilmente acessíveis durante o mandato de Bolsonaro. A necropolítica escorre pela sociedade, chegando à sua base eleitoral, que, fortalecida pelo presidente, mostra que o capricho pessoal vale mais que a saúde coletiva.

Não há, entre todas as consequências possíveis das declarações da quinta, nenhuma que proteja a vida e a economia. Em nome de seus ganhos políticos, Bolsonaro aceita de bom grado o país se tornar um cemitério.