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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gravações apontam Jair Bolsonaro como o patriarca das 'rachadinhas'

Colunista do UOL

05/07/2021 04h30

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Enquanto um escândalo de corrupção na compra de vacinas para covid-19 atinge diretamente Jair Bolsonaro (sem partido), que teria se omitido de investigá-lo, beneficiando seus aliados, um outro escândalo de mau uso de dinheiro público volta a assombrá-lo.

Gravações inéditas divulgadas pela colunista Juliana Dal Piva, com a ajuda da equipe do núcleo de jornalismo investigativo do UOL, reforçam que apesar de Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) estar no centro do escândalo das "rachadinhas" (como ficou conhecida a apropriação indevida de salários de servidores de seu gabinete), Jair adotava a mesma prática entre seus funcionários na Câmara dos Deputados.

Mais do que isso: a extensa e detalhada reportagem, divulgada nesta segunda (5), mostra o presidente sendo tratado como o "01" do esquema em uma troca de mensagens entre a esposa de Fabrício Queiroz, Márcia Aguiar, e sua filha, Nathalia Queiroz. Márcia, que esteve foragida enquanto seu marido estava preso em meio às investigações, disse que Jair não o deixará atuar como antes na política.

E como ele atuava antes? O Ministério Público do Rio de Janeiro acusa Fabrício Queiroz de ser operador do esquema enquanto Flávio era deputado estadual na Assembleia Legislativa. Ele, que é amigo de longa data de Jair e foi colocado por ele no gabinete do filho, seria o responsável por organizar o recebimento do dinheiro desviado de servidores reais e fantasmas e ajudar em sua lavagem.

Dada a incompetência que vem demonstrando na gestão do país, principalmente durante pandemia, até parece que o presidente não havia administrado nada antes do atual cargo. Contudo, as revelações sobre esquema das rachadinhas são fortes indícios que ele tinha sim.

Um esquema mafioso que se valeu da percepção de impunidade para se manter vivo por muito tempo. Um conglomerado de crime que chegou à Presidência da República.

JAIR BOLSONARO -  Marcos Corrêa/PR  -  Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro, presidente da República
Imagem: Marcos Corrêa/PR

'Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo'

Uma gravação obtida pela colunista Juliana Dal Piva mostra Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada de Jair, afirmando textualmente que o então deputado federal e, hoje, presidente demitiu o seu irmão porque ele deveria devolver R$ 6 mil por mês e entregava algo entre R$ 2 mil e R$ 3 mil de volta de seu salário como assessor. Segundo o áudio, ela disse que Bolsonaro falou: "Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo".

A reportagem também mostra que o envolvimento de militares nos rolos do clã não é coisa nova, mas começou muito antes de sua chegada à Presidência da República. O coronel da reserva do Exército, Guilherme dos Santos Hudson, que foi colega de Jair na Academia Militar das Agulhas Negras, é apontado como responsável por recolher salários da ex-cunhada quando ela era contratada como assessora do gabinete de Flávio.

Em reportagem anterior do núcleo de jornalismo investigativo do UOL, já havíamos ficado sabendo de uma série de transações financeiras suspeitas de assessores do clã Bolsonaro, que sacavam mais de 70% de seus salários. A família pagava salários a 18 parentes de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Jair, através de seus gabinetes. Pai, mãe, irmão, cunhados, tias, tio, primos, madrasta de primo contratados para atuar como servidores de Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro. Parte deles está sendo investigada e teve sigilo quebrado pelo Ministério Público.

Entre eles, Andrea, irmã de Ana, que aparece como funcionária do gabinete do então cunhado deputado federal entre 1998 e 2006. Ela nunca morou em Brasília, permanecendo em Resende (RJ). O endereço indicado para o seu Imposto de Renda era a casa de Jair, na Barra da Tijuca. Ao final do período de Andrea no Congresso, Ana transferiu para si o dinheiro que restava na conta bancária em que a irmã recebia o salário - R$ 54 mil ou R$ 110 mil, em valores atualizados. Ana chegava a ficar com cartões das contas através das quais assessores do clã recebiam seus salários.

Ana Cristina também chefiou o gabinete do ex-enteado Carlos Bolsonaro, entre 2001 e 2008, e, por conta disso, está sendo investigada no inquérito que apura suspeitas de "rachadinha" que recaem sobre o vereador.

Depois que deixou o gabinete de Jair, Andrea foi para o de Carlos, na Câmara dos Vereadores do Rio, onde ficou no cargo por dois anos, chefiada pela irmã. E, a partir de 2008, se mudou para o gabinete de Flávio, na Alerj, permanecendo por dez anos como funcionária fantasma. É investigada pelo MP por rachadinha nesses dois últimos.

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O coronel Guilherme Hudson, o presidente Jair Bolsonaro, e seu ex-cunhado André Siqueira Valle
Imagem: Arte/UOL

Peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa

Pagamentos a cabos eleitorais de Flávio Bolsonaro também constam na quebra de sigilo bancário de Queiroz determinada pela Justiça do Rio. Foram 15 transferências da conta de Queiroz para elas, num total de R$ 12 mil, em setembro e outubro de 2018. Isso sem contar os saques em dinheiro vivo, que impossibilitam o rastreamento de seu uso.

A conta é a mesma em que, segundo o núcleo de jornalismo investigativo do UOL, ele recebia a devolução compulsória de parte dos salários dos funcionários públicos do gabinete de Flávio na Assembleia. Ou seja, além da origem problemática do dinheiro, como esses pagamentos não foram declarados à Justiça Eleitoral, também haveria caixa 2.

Bolsonaro sempre fez parte do baixo clero no Congresso Nacional e estava alijado dos grandes acordões. O que não significa que ele não realizava cambalachos por conta própria, que podem parecer pequenos, mas, no longo prazo, somam milhões.

Na denúncia, o Ministério Público acusa o senador de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa e que, ao final do processo, ele perca o seu mandato. Jair Bolsonaro não pode ser investigado por crimes cometidos antes do seu mandato enquanto for presidente da República, mas nada impede que ele seja investigado.

Mais do que o desejo de permanecer no poder para impor sua visão de mundo, tudo indica que Jair quer se reeleger para evitar o xilindró. Pela forma como usou recursos públicos durante o seu governo, mas também pela maneira como ele os usou antes de ser presidente.

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O senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ)
Imagem: Beto Barata/Agência Senado

'Minha vontade é encher tua boca com uma porrada'

Questionado no dia 23 de agosto do ano passado por um repórter do jornal O Globo sobre os depósitos feitos por Fabrício Queiroz na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, o presidente da República afirmou: "Minha vontade é encher tua boca com uma porrada". Logo depois, chamou o jornalista de "safado".

A quebra de sigilo bancário de Queiroz mostrou que ele depositou R$ 72 mil na conta da primeira-dama entre 2011 e 2018, conforme revelou a revista Crusoé. Sua esposa, Márcia de Aguiar, colocou mais R$ 17 mil - informação obtida pela Folha de S.Paulo. No total, R$ 89 mil.

O Coaf havia apontado, em 2018, um depósito de R$ 24 mil de Queiroz para Michelle. Jair prontamente disse, naquele ano, que isso era parte da devolução de um empréstimo de R$ 40 mil que ele fez ao amigo de longa data. Porém, nunca comprovou nada.

Jair já havia tratado com agressividade profissionais de imprensa que cobraram explicações sobre o assunto. No dia 20 de dezembro de 2019, após um deles perguntar sobre comprovantes de transações que envolviam Queiroz e sua família, disse: "Ô rapaz, pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?"

Bolsonaristas sempre usam como tática de defesa a justificativa de que o "problema" das rachadinhas não envolve o presidente, apenas o senador. Os depósitos não explicados na conta da primeira-dama, contudo, indicaram outra coisa. As revelações sobre funcionários fantasmas em seu gabinete também. Agora gravações reforçam a percepção de que o patriarca da família também é o patriarca da rachadinha.