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Leonardo Sakamoto

Denúncia contra general Pazuello nos lembra que 'um manda, o outro obedece'

Jair Bolsonaro e o general Eduardo Pazuello - Reprodução/Youtube
Jair Bolsonaro e o general Eduardo Pazuello Imagem: Reprodução/Youtube
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/07/2021 16h25

O governo Jair Bolsonaro prolongou desnecessariamente a pandemia ao sabotar a compra de vacinas, atacar quarentenas, promover remédios inúteis. Aquilo que, no início, cheirava apenas a negacionismo violento e terraplanismo sanitário vai se mostrando também um excelente negócio para aliados civis e militares segundo denúncias trazidas pela CPI da Covid.

Reportagem de Constança Rezende e Mateus Vargas, na Folha de S.Paulo, desta sexta (16), mostra que o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, prometeu comprar de intermediários 30 milhões de doses da CoronaVac com um valor quase três vezes maior do que o oferecido pelo Instituto Butantan - que produz a vacina do laboratório chinês Sinovac no Brasil.

Uma gravação ao final da reunião, no dia 11 de março, com a World Brands, empresa de Santa Catarina, feita no gabinete do coronel Élcio Franco, então secretário-executivo da pasta, mostra Pazuello comemorando o "memorando de entendimento já assinado".

Contraditoriamente, à CPI da Covid, em 19 de maio, ele disse que não negociava com empresas porque era o dirigente máximo da pasta. "O ministro jamais deve receber uma empresa", afirmou.

Ou Pazuello mentiu ou ele concorda com a análise de que era apenas um fantoche do presidente da República, este sim o verdadeiro ministro da Saúde e formulador da necropolítica com a ajuda intelectual (sic) do Gabinete Paralelo.

O Ministério da Saúde sempre foi alvo do desejo de grupos políticos por conta do tamanho de seu orçamento e da capilaridade de sua atuação, podendo beneficiar aliados nos Estados e municípios. Mas se cambalachos na saúde, que já são absurdos em tempos de paz, transforma-se em crimes contra a humanidade agora em que travamos a pior guerra de nossa história, com quase 540 mil mortos. Os cambalachos não param de surgir.

A cada enxadada, surge uma minhoca

Primeiro, foi a Covaxin, com as evidências de corpo mole por parte de Bolsonaro diante de denúncia de superfaturamento de preço e irregularidades no contrato envolvendo servidores públicos e aliados no Congresso. O governo negociou a vacina indiana a toque de caixa, enquanto enrolou por meses a Pfizer, que tinha um imunizante comprovadamente eficaz, mais barato e que poderia começar a ser entregue ainda em dezembro do ano passado a tempo de salvar milhares de vidas.

Depois, vieram as 400 milhões de doses da vacina-fantasma da Davati Medical Supply, uma empresa obscura dos Estados Unidos, que tentou vender terreno na Lua para o governo brasileiro. O que importava era o rolo, porque o rolo é fértil para a sacanagem. Segundo o vendedor e cabo da PM Luiz Dominghetti, ocorreu um pedido de propina (ou melhor, "comissionamento") de um dólar por dose de vacina por parte de Roberto Dias, então diretor de Logística do ministério, que responderia ao deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara.

Participaram das bizarras negociações de vacinas no Ministério da Saúde militares em número suficiente para começar uma guerra.

Cristiano Carvalho, representante da Davati, citou nesta quinta (15), além do coronel Élcio Franco, o coronel da reserva Marcelo Blanco, ex-assessor da área de Logística, o coronel Helcio Bruno, do Instituto Força Brasil (organização bolsonarista que divulgou fake news contra vacinas), o coronel da reserva Cleverson Boechat, coordenador-geral de Planejamento, o coronel da reserva Marcelo Bento Pires, da coordenação do Plano Nacional de Operacionalização das Vacinas contra a Covid-19, o coronel reformado da Aeronáutica Gláucio Octaviano Guerra, assessor do adido militar na embaixada brasileira em Washington DC.

Guerra que serviu para ajudar o inimigo, o vírus. Tudo com a benção de um reverendo, Amilton de Paula. A CPI investiga se ele teria feito a ponte da Davati com o presidente da República usando a primeira-dama como intermediária.

A pergunta é o que fará o Exército - que foi tigrão ao ameaçar o Senado Federal após o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), comentar o óbvio (que militares honestos devem passar vergonha com as maças podres), mas tchutchuca diante de uma transgressão disciplinar de Pazuello - que participou de uma micareta política com Bolsonaro e não foi punido. Isso sem contar que ele foi cúmplice na montanha de 540 mil mortes por covid.

Ao que tudo indica, alguns militares queriam ganhar um bom cascalho com a compra de vacinas. O ministro da Defesa, general Braga Netto, e os três comandantes das Forças Armadas deveriam emitir nota, como comentei aqui ontem, repudiando a corrupção e não quem a combate. O risco do silêncio é que militares e Bolsonaro sejam vistos como uma coisa só. O que, por si só, deveria ser ofensivo aos militares.

O mais bizarro dessa história é que o presidente rebaixou Pazuello em público, em outubro do ano passado, quando mandou cancelar a compra de 46 milhões de doses de CoronaVac oferecidas pelo Instituto Butantan, que o então ministro da Saúde havia anunciado. Se ela tivesse se mantido, a vacinação em massa poderia ter começado antes e salvado milhares de pessoas. E compras de atravessadores com preço mais alto teriam sido mais raras.

Pazuello não pediu demissão na época. Pelo contrário, aceitou gravar um vídeo ao lado do presidente em que diz uma frase que deveria entrar no Dicionário Houaiss como um dos exemplos do verbete "Humilhação":

"É simples assim: um manda, outro obedece".

Se isso for verdade, como o então ministro fez questão de insistir, Bolsonaro terá muito o que explicar.