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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro só vai tirar 'bode na sala' de R$ 5,7 bi se o centrão autorizar

O presidente Jair Bolsonaro participa de evento no Palácio do Planalto, em Brasília (DF) - Adriano Machado/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro participa de evento no Palácio do Planalto, em Brasília (DF) Imagem: Adriano Machado/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

20/07/2021 09h20

Jair Bolsonaro disse, nesta segunda (19), que pode vetar o fundo eleitoral com R$ 5,7 bilhões. A entrevista, pitorescamente anunciada como "exclusiva" por uma TV Brasil que tem atuado como assessoria de seu governo, é um aviso de que a retirada do "bode na sala" está sendo negociada.

O presidente não pode sancionar os R$ 5,7 bilhões porque deixaria seus seguidores fiéis, que vão à guerra pelo "mito", #chateados. Também não pode simplesmente vetá-lo porque puxaria o tapete do centrão, único anteparo entre ele e o impeachment, e criaria um problema para o financiamento do pleito de 2022.

A sinuca de bico esconde uma jogada que estava cantada antes mesmo da aprovação do projeto pelo Congresso Nacional. Um experiente advogado eleitoral, que já trabalhou em campanhas da esquerda e da direita, havia dito à coluna que a proposta de R$ 5,7 bi carregava gordura o bastante para que um corte do presidente lhe garantisse a imagem de austero. Assessores parlamentares ratificavam isso, afirmando que esse era um valor "vai que cola", ou seja, aberto à negociação.

Bolsonaro só vetaria o aumento caso o centrão lhe autorizasse previamente a fazer isso, através da costura de um acordo com a proposta de um novo valor, em que parlamentares saiam satisfeitos e o presidente possa guardar alguma dignidade. Caso contrário, corre o risco de rancor por parte de parlamentares, que não vão engolir facilmente que o presidente quis pagar de bom moço, deixando para eles todo o ônus.

Ao final, ele dirá que não pode reduzir mais ainda o valor sob o risco de cometer algum crime de responsabilidade, groselha que sempre diz para justificar o fato que não pode ir contra aqueles que o mantém vivo. Enfim, como a bola já estava cantada, deputados e senadores não estão cedendo ao presidente, mas o contrário.

Os balões de ensaio com novas propostas, com valores que vão de R$ 4,5 a R$ 3,5 bilhões, vão sendo apresentados à população pela imprensa e as redes sociais. O valor é bem maior que o R$ 1,8 bilhão original, mas representaria um bode na sala menos fedorento. A questão é saber se menos fedorento o bastante para enterrar a questão junto àqueles que ainda acreditam em Bolsonaro.

Jair tem afirmado que sua eleição é um exemplo de como uma campanha não precisa de recursos. No cálculo, desconsidera as denúncias que apontam os envios em massa de mensagens pagas por bilionários empresários bolsonaristas e que não aparecem na contabilidade entregue ao Tribunal Superior Eleitoral. O impacto disso em sua votação ainda é alvo de estudos, mas poucos têm dúvida de que isso configura um caixa 2 bem descarado.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, compartilhou dados dos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos com o TSE, que analisa ações que pedem a cassação da chapa presidencial por conta do uso de recursos privados não declarados na campanha digital de 2018. Apesar de manter o governo alerta, é bem pouco possível que o processo avance. As ações em curso apontam para ação coordenada entre bolsonaristas, empresários e militantes para atacar os adversários por meio de disseminação de desinformação em massa.

Coisa que deve se repetir em 2022.

Se a Justiça Eleitoral conseguisse impedir, de fato, a utilização desses subterfúgios, não tenha dúvida que Bolsonaro estaria abraçando, neste momento, um fundo eleitoral ainda maior que os R$ 5,7 bi.