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Leonardo Sakamoto

Com 550 mil óbitos, Brasil encara queda de cinco Airbus por dia como rotina

Funcionário passa por meio de sepulturas no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM) - Michel Dantas/AFP
Funcionário passa por meio de sepulturas no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus (AM) Imagem: Michel Dantas/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/07/2021 20h17

O Brasil ultrapassou 550 mil mortes registradas por covid-19 nesta segunda (26), de acordo com o consórcio de veículos de imprensa. Para ser mais exato: 550.586. Foram 587 óbitos nas últimas 24 horas e 1.101 de média móvel nos últimos sete dias. O ritmo de perda de vidas está caindo, mas não rápido o bastante. Ainda estamos no inferno das mortes estúpidas. E, aos poucos, vamos nos acostumamos a ele.

O avanço da imunização tem se traduzido em queda de mortes, principalmente entre os mais idosos. Isso apesar do governo Jair Bolsonaro, com seu atraso deliberado e sua corrupção descarada na aquisição de vacinas. Cerca de 95 mil a 145 mil mortes ocorreram porque Bolsonaro demorou a comprar imunizantes em 2020, estima Pedro Hallal o epidemiologista e professor da Universidade Federal de Pelotas.

A taxa de brasileiros completamente vacinados (20%), contudo, ainda está longe de garantir proteção coletiva. E vemos pelo avanço da variante delta nos Estados Unidos, que pode obrigar o retorno de uso de máscaras em ambientes externos, que enquanto a esmagadora maioria da população não estiver imunizada, corremos o risco de um novo colapso hospitalar.

Após termos atingido o recorde de 4.211 óbitos registrados em 24 horas, no último dia 6 de abril, uma média móvel com mais de mil cadáveres diários por covid-19 parece não causar tanta comoção. Prova disso é que convivemos com essa média móvel acima de mil desde janeiro.

Cansados pela pandemia e toda vida que ela nos roubou, rotinizamos as mortes - até como estratégia de sobrevivência para podermos tocar a vida. Estratégia que cai por terra quando ela atinge nosso círculo próximo, um colega de trabalho, um amigo, um familiar - ou, no meu caso, todos de uma vez.

Bolsonaro sabotou a mais importante guerra de nossa história. Abraçou o inimigo, defendendo que a melhor forma de para-lo seria deixando que ele ganhasse, infectando rapidamente a população para criar imunidade, o que gerou muitos mortos. Ao mesmo tempo, permitiu que a pandemia se tornasse um bom negócio para civis e militares que atuaram para tirar um cascalho dos cofres públicos ao se envolverem em superfaturamento de vacinas.

E os mais de 550 mil mortos em decorrência dessa sabotagem? "Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre", como disse o presidente em 28 de abril. "Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", afirmou em 2 de junho. "Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas", sentenciou em 10 de novembro. "Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. Essa é a vida", ladrou em 27 de março.

Para não perdermos a devida proporção do que as 1.101 mortes de média móvel representam, vale lembrar que elas são maiores em número do que as cinco maiores tragédias dos últimos 105 anos do país.

Os deslizamentos na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro (918, sem contar desaparecidos), em janeiro de 2011. Os mortos da onda de execuções promovida por agentes do Estado e membros do PCC em São Paulo (564, sem contar desaparecidos), em maio de 2006. Os que pereceram no incêndio do Gran Circo Norte-Americano em Niterói (503 mortos) em dezembro de 1961. Os 477 mortos no naufrágio do transatlântico Príncipe de Astúrias em Ilhabela, em março de 1916. Os 436 óbitos do deslizamento de terra sobre Caraguatatuba, em março de 1967, sem contar os desaparecidos.

Em 17 de julho de 2007, 199 pessoas morreram na tragédia do voo 3054 da TAM em São Paulo. Após 550 mil mortes, mais de cinco Airbus A320-233 caem, em média, diariamente no Brasil. E tocamos a vida adiante, esperando os próximos cinco aviões no dia seguinte.

O dano colateral disso é que o Brasil pode sair da crise mais à imagem e semelhança de Jair Bolsonaro. Um país mais insensível à dignidade humana, com cada um lutando apenas por sua própria alegria e sobrevivência, e que se dane o resto, poderá ser o seu legado.