PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Casado com centrão por interesse, Bolsonaro sabe que fidelidade tem preço

Sergio Lima / AFP
Imagem: Sergio Lima / AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/07/2021 13h26

O presidente da República afirmou, nesta segunda (26), que o vice é como um cunhado e que cunhado não pode ser mandado embora. Contudo, ele já mandou um embora. E, ao que tudo indica, foi pelo sujeito lhe passar a perna enquanto ele mesmo estava passando a perna nos cofres públicos. Sim, Jair Bolsonaro mente até nas metáforas.

"O Mourão faz o seu trabalho, tem uma independência muito grande. Por vezes aí atrapalha um pouco a gente, mas o vice é igual cunhado, né. Você casa e tem que aturar o cunhado do teu lado. Você não pode mandar o cunhado embora", afirmou em entrevista à rádio Arapuan, de João Pessoa (PB).

De fato, ele não pode demitir Hamilton Mourão, eleito nas eleições de 2018, apesar de acreditar que o general trama para ficar com o seu lugar. Bolsonaro mantém com ele o mínimo de relacionamento possível, alijando-o de reuniões ministeriais e entregando missões protocolares ou que não digam respeito a coisas relevantes do governo. Como defender os interesses de igrejas brasileiras na África.

Mas uma gravação obtida pela colunista Juliana Dal Piva, do UOL, mostrou Andrea Siqueira Valle, irmã de sua então esposa Ana Cristina, afirmando que o então deputado federal e, hoje, presidente demitiu o seu irmão porque ele estaria tirando mais cascalho do que o autorizado em um esquema de desvios de salários de servidores de seu gabinete quando era deputado federal - as famosas rachadinhas.

"O André deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6 mil, ele devolvia R$ 2 mil, R$ 3 mil. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: 'Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo'", afirmou o áudio.

O núcleo de jornalismo investigativo do UOL já apontou uma série de transações financeiras suspeitas de assessores do clã Bolsonaro, que sacavam mais de 70% de seus rendimentos.

A família pagava salários a 18 parentes da ex-mulher de Jair através de seus gabinetes. Pai, mãe, irmão, cunhados, tias, tio, primos, madrasta de primo contratados para atuar como servidores de Jair, Flávio e Carlos Bolsonaro. Parte deles está sendo investigada e teve sigilo quebrado pelo Ministério Público.

Casado com o centrão por interesse, Bolsonaro não pode esperar fidelidade eterna

O comentário sobre o vice ocorreu após Bolsonaro ser questionado se Mourão estaria ao seu lado na chapa de 2022. O general deve optar por uma saída honrosa, como disputar uma vaga ao Senado Federal pelo Rio Grande do Sul.

O presidente disse que o cargo é muito importante para "agregar simpatia" do eleitorado. Mas, durante a campanha de 2018, uma das razões que ajudou na escolha de um militar como vice foi de que isso serviria como uma espécie de proteção contra cassação.

"Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara 'faca na caveira' pra ser vice", disse, na época, o deputado federal Eduardo Bolsonaro. "Tem que ser alguém que não compense correr atrás de um impeachment."

Após dois anos e meio de governo, parte significativa da oposição prefere Mourão nu do que Bolsonaro pintado de ouro. Prova de que os parâmetros do que é aceitável foram redefinidos é que há até suspiros saudosos pela época de Michel Temer, ainda que envergonhados em quem criticava o ex-presidente.

A metáfora do cunhado surge no momento em que Bolsonaro entrega o dote de seu casamento com o centrão: a Casa Civil, que ficará sob o comando do senador Ciro 'Bolsonaro é um fascista' Nogueira (PP-PI).

Este não é matrimônio por amor, mas um arranjo político e econômico para garantir que o presidente não sofra impeachment e tenha algum nível de governabilidade e que parlamentares da base tenham polpudas emendas, cargos em ministérios e estatais e participem da divisão de poder.

Como todo casamento movido por interesse, ele vai até deixar de ser vantajoso para uma das partes. Seja porque a relação com o "conjê" destrói a percepção que o público tem da pessoa, seja porque não há mais recursos para oferecer. Daí, é o cunhado, a sogra, a esposa que te demitem e não o contrário.

Espero que Bolsonaro tenha lido o contrato pré-nupcial. Pois, na letrinha miúda, não está incluído obrigação de fidelidade eterna. Vai ser caso a caso.