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Leonardo Sakamoto

Com R$ 400 mil que SP gastará em fuzis, padre Júlio tiraria pessoas do frio

O padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo - ANTONIO MOLINA/ZIMEL PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo Imagem: ANTONIO MOLINA/ZIMEL PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/08/2021 18h22

O prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB) liberou R$ 400 mil para a compra de 20 fuzis e dez carabinas a fim de equipar a Guarda Civil Metropolitana, atendendo a uma emenda do vereador Delegado Palumbo (MDB).

A função do órgão é zelar pela segurança de escolas, parques, vias e prédios sob responsabilidade da Prefeitura, além de garantir a integridade de servidores públicos. Atuar no enfrentamento a criminosos ou investigar delitos. por sua vez, competem à Polícia Militar e à Polícia Civil.

Diante da polêmica instalada, padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo, sugeriu outro uso imediato para esses recursos.

"Com os R$ 400 mil, teríamos como alojar quase toda a população que está ficando na rua em meio a este frio em leitos de hotéis e pensões. Além de agasalhá-las e alimentá-las", afirmou a esta coluna. Ele explica que o alojamento nesses locais, ao invés de em abrigos, é mais eficaz.

"Usar esse valor em armas em um momento em que a pandemia e o frio extremo estão tirando vidas chega a ser dramático e desumano", diz.

Desde o fim de junho, pelo menos 17 pessoas morreram de hipotermia na capital paulista, de acordo com o Movimento Estadual da População em Situação de Rua em São Paulo. Após apelo do padre Júlio Lancellotti, algumas estações de metrô e as igrejas permaneceram abertas, à noite e de madrugada, a fim de acolher pessoas em situação de rua nos dias mais frios.

Para ele, armar o órgão municipal com equipamentos de alto poder destrutivo é ilegal porque foge do papel da Guarda Civil Metropolitana.

A administração municipal, por sua vez, afirma que o armamento pesado será usado pela Inspetoria de Operações Especiais da GCM. O órgão vem atuando no combate ao tráfico de drogas nas cracolândias. Isso tem gerado uma discussão se o prefeito Ricardo Nunes quer, transformando a Guarda Civil em uma mini-PM, colher dividendos políticos diante da sensação de insegurança da população.

Pessoas em situação de rua reclamam que fiscais e membros da Guarda Civil Metropolitana têm tomado colchões, cobertores e pertences de pessoas que dormem na rua, apesar de um decreto municipal proibir isso de acontecer. Ainda mais no frio.