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Leonardo Sakamoto

'Descontrolada': Quantas vezes nós, homens, somos machistas como ministro?

Wagner Rosário, ministro da CGU, presta depoimento à CPI da Covid - Leopoldo Silva/Agência Senado
Wagner Rosário, ministro da CGU, presta depoimento à CPI da Covid Imagem: Leopoldo Silva/Agência Senado
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

21/09/2021 17h21

A senadora Simone Tebet (MDB-MS) havia acabado de fazer uma inquirição destruidora mostrando documentos e depoimentos que contradiziam as declarações que o ministro Wagner Rosário, da Controladoria-Geral da União (CGU), havia dado à CPI a Covid, nesta terça (21). Ele defendeu os contratos da Precisa Medicamentos com o governo federal para a compra da vacina indiana Covaxin, suspeitos de superfaturamento.

Ela disse que fez, junto com sua equipe, uma extensa leitura de todo o material e que há evidências de que o ministro não agiu diante de irregularidades no processo. Em sua réplica, Rosário retrucou que a senadora deveria ler tudo novamente, deixando a entender que ela não havia compreendido. Tebet reagiu com indignação e discutiu com o ministro, quando foi chamada de "totalmente descontrolada" por ele.

Apesar de ter travado embates, principalmente com o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), ele não havia tratado nenhum senador do sexo masculino dessa forma. A cena, machista, bizarra e grosseira, chocou muita gente porque foi transmitida ao vivo para milhões. Mas ela acontece com mais frequência do que gostaríamos de admitir.

Entre as diversas práticas machistas que nós, homens, de qualquer idade, ideologia e ou grupo social, incidimos com frequência estão o mansplaining e o gaslighting. O primeiro é quanto tentamos explicar algo a uma mulher assumindo que ela não entende o assunto e subestimando sua inteligência. O segundo é quando levamos uma mulher a acreditar que ela está louca porque não está entendendo a realidade à sua volta.

Apesar do bolsonarismo ser um movimento conhecido pela misoginia, inspirado na figura de seu líder, que já produziu aberrações como dizer à deputada Maria do Rosário (PT-RS) que ela nem "merecia" ser estuprada, esse tipo de machismo tosco de Wagner Rosário é produzido em maior ou menor grau por todos nós, homens. Da esquerda à direita, nas relações afetivas, nas amizades e no trabalho.

Temos que criticar a atitude bizarra e violenta de Wagner Rosário, porque ela é inaceitável. Mas sem esquecer que também precisamos agir, educando uns aos outros e fazendo nossa autocrítica, pois a estupidez não é monopólio de ninguém.

Em tempo: Wagner Rosário, com seu ato, deve ganhar pontos com Bolsonaro, que valoriza ministros que agem como ele. Da mesma forma que o titular da pasta Saúde Marcelo Queiroga e o chanceler Carlos França marcaram pontos, respectivamente, por um gesto obsceno e uma arminha com os dedos contra manifestantes em Nova York.