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Leonardo Sakamoto

Queiroga surta, ataca protesto e se mostra incapaz de combater a pandemia

Isac Nóbrega / PR
Imagem: Isac Nóbrega / PR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

21/09/2021 07h55

Ao surtar diante de um protesto contra Jair Bolsonaro, em Nova York, nesta segunda (20), e, de forma descontrolada, exibir o dedo do meio a manifestantes, Marcelo Queiroga demonstrou ser incapaz de liderar o combate à covid-19. O ministro da Saúde derreteu sob uma pressão mínima. O que torna a situação ainda mais preocupante. A do Brasil, no caso.

Um grupo pequeno gritava palavras de ordem contra o presidente em frente à residência da missão brasileira junto às Nações Unidas, onde Bolsonaro havia jantado, e tentou bloquear a saída de veículos. Queiroga, de dentro de uma van, levantou do seu assento e, ensandecido, passou a fazer gestos obscenos. Garotos da quinta série demonstrariam mais maturidade.

Em qualquer governo que venceu a pandemia, a escolha do profissional para ocupar o cargo de ministro da Saúde foi fundamental não apenas por garantir que o país agisse de acordo com a ciência, mas também para manter o governo nos trilhos e a população calma diante dos desafios. Todos podem surtar na crise, menos essa pessoa. Ironicamente, na van, Queiroga era o mais agressivo.

Bolsonaro defenestrou dois ministros, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, que se negavam a promover os remédios do infame "kit covid" inúteis para tratar a doença. Ao colocar no comando o general Eduardo Pazuello, um fantoche, o presidente tornou-se ele próprio ministro da Saúde e ficou livre para sabotar a guerra contra o vírus.

Pazuello aceitou isso de bom grado, tanto que, em outubro do ano passado, ao ser desautorizado pelo presidente sobre a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, disse sorridente ao lado de Bolsonaro: "é simples assim, um manda e o outro obedece".

Quando Queiroga entrou, a esperança de alguns desavisados é que um médico resistiria às pressões negacionistas do presidente. Infelizmente, em diversas ocasiões, o doutor mostrou ter mais amor ao cargo do que à ciência.

No último exemplo, o Dr. Jair Bolsonaro, especialista em imunologia pela Universidade do WhatsApp, o pressionou para interromper a vacinação de adolescentes contra a covid-19. Queiroga reconheceu a pressão ao afirmar que "o presidente me cobra todo dia essas questões de vacinação, sobretudo com essa questão dos adolescentes".

A área técnica do Programa Nacional de Imunizações (PNI) não foi consultada antes da decisão, indicando que o interesse público e a saúde coletiva foram deixados de lado para agradar o terraplanismo científico de seguidores e aliados do presidente. Além disso, ao que tudo indica, faltou vacina e o governo, que grita aos quatro ventos que ela está sobrando, quis dar um jeito. A maioria dos estados ignorou Queiroga, vendo nele um Pazuello de jaleco branco, e manteve a imunização de adolescentes.

Ou seja, o sucesso do combate à covid depende de ignorarmos a pessoa que comanda o combate à covid.

Por conta da presepada com as vacinas dos adolescentes, a CPI da Covid deve convocar Queiroga, pela terceira vez, de acordo com o relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL).

A cadeira de ministro da Saúde segue vazia. O Brasil está à espera de alguém que acredite na ciência, aja segundo a ética médica de não causar mal, não seja um fantoche nas mãos do negacionismo, evite a corrupção dentro de sua pasta e tenha a serenidade que o cargo pede.

O vazio dessa cadeira, não à toa, combina com o vácuo da cadeira presidencial.

Em tempo: Ao lado de Queiroga, o "moderado" chanceler Carlos França, que substituiu Ernesto Araújo, fez arminha com as mãos, como se atirasse nos manifestantes.