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Leonardo Sakamoto

Governo trata Brasil como idiota ao justificar vacina de Michelle nos EUA 

Carolina Antunes/PR
Imagem: Carolina Antunes/PR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/09/2021 22h01

Em uma nota que trata a população brasileira como idiota, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República tentou explicar a razão de a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, ter tomado a vacina contra covid-19 somente na semana passada, em Nova York, ao invés de ter se imunizado em julho, junto com outras pessoas de sua idade, em Brasília.

"Antes de retornar ao país, submeteu-se ao teste de PCR, obrigatório para autorização de embarque e, durante a realização da testagem, a Primeira-Dama foi indagada pelo médico se ela gostaria de aproveitar a oportunidade para ser vacinada. Como já pensava em receber o imunizante, resolveu aceitar", afirma a nota.

Tudo bem que o governo precisava dar uma resposta rápida após a primeira-dama ser duramente criticada por ter sido uma sommelier de país e cuspido na cara do SUS. Porque, convenhamos, o Brasil também tem os imunizantes da Pfizer e da Janssen, que são aplicados nos Estados Unidos.

Considerando que a pessoa que escreveu a nota não estava bêbada (afinal, é sexta à noite), nem zoando com a nossa cara, o que ela diz é que a primeira-dama demorou dois meses para tomar a vacina porque ninguém tinha perguntado a ela no Brasil se desejava ser imunizada.

Se é assim que funciona, temos uma sugestão: Michelle, por favor explique à população a razão de Fabricio Queiroz e sua esposa Márcia Aguiar terem depositado R$ 89 mil em cheques em sua conta bancária?

Uma quebra de sigilo bancário de Queiroz mostrou que ele depositou R$ 72 mil na conta da primeira-dama entre 2011 e 2018, conforme revelou a revista Crusoé. Sua esposa, Márcia, colocou mais R$ 17 mil - informação obtida pela Folha de S.Paulo. No total, R$ 89 mil. A revelação veio a público em agosto de 2020.

De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro era o operador do desvio de recursos públicos do gabinete do então deputado estadual e, hoje, senador. O Coaf havia apontado, em 2018, um depósito de R$ 24 mil de Queiroz para Michelle. Jair prontamente disse, naquele ano, que isso era parte da devolução de um empréstimo de R$ 40 mil que ele fez ao amigo de longa data. Porém, nunca comprovou patavinas.

Questionado, no dia 23 de agosto do ano passado, por um repórter do jornal O Globo sobre os depósitos, o presidente da República afirmou: "Minha vontade é encher tua boca com uma porrada". Logo depois, chamou o jornalista de "safado".

No dia 5 de julho de 2021, o STF garantiu maioria para arquivar uma notícia-crime sobre o recebimento de cheques por Michelle Bolsonaro. Em seu parecer, a Procuradoria-Geral da República disse que não havia informações de que o caso teria envolveria o presidente da República e, por isso, o caso não cabia ao STF.

O Brasil deveria aproveitar que esse médico de Nova York é muito convincente e pedir para ela explicar os R$ 89 mil.

A ideia é muito menos tosca que essa nota, produzida com dinheiro público.

Imagina-se que um órgão do governo não diria que Michelle tinha medo de contrariar o presidente e por isso não se vacinou no Brasil. Mas, nessas horas, quando não há justificativa, o silêncio é melhor que a galhofa.