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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro ameaça vender Petrobras para terceirizar culpa pela gasolina

2.out.2021 - A alta dos preços tem sido um dos pontos principais nos protestos contra o governo do presidente Jair Bolsonaro - Herculano Barreto Filho/UOL
2.out.2021 - A alta dos preços tem sido um dos pontos principais nos protestos contra o governo do presidente Jair Bolsonaro Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

14/10/2021 17h34

Discordo da privatização da Petrobras, mas reconheço que há argumentos racionais contra e a favor. O que não é o caso do comentário do presidente Jair Bolsonaro à Rádio Novas de Paz, de Pernambuco, nesta quinta (14). Basicamente sugeriu que o governo venda o controle da empresa porque ele não aguenta mais ser responsabilizado pelas altas nos preços dos combustíveis e do gás de cozinha.

"Aumentou a gasolina? Culpa do Bolsonaro! Eu já tenho vontade de privatizar a Petrobras, tenho vontade. Vou ver com a equipe econômica o que a gente pode fazer. Eu não posso, não é controlar, mas melhor direcionar o preço de combustível. Mas quando aumenta, a culpa é minha", afirmou o presidente.

Na entrevista, novamente jogou a culpa do aumento dos combustíveis no ICMS cobrado pelos Estados. Nenhuma palavra sobre o "Risco Bolsonaro", que elevou o preço do dólar ao gerar instabilidade política e insegurança econômica no país. Dólar mais alto aumenta a gasolina, o diesel, o gás de cozinha. E, consequentemente, os alimentos.

Jair sabe que é mais fácil o tal camelo passar pelo buraco da tal agulha do que ele conseguir privatizar a Petrobras. Primeiro, porque seu governo foi incapaz de levar a cabo o programa de privatizações que prometeu na campanha. E, além disso, não há ambiente político para isso, tanto do ponto de vista da opinião pública quanto do apoio do centrão no Congresso Nacional.

Portanto, ele faz essa cena ridícula para tentar jogar mais uma cortina de fumaça sobre essa discussão (a outra é o próprio debate sobre o ICMS nos combustíveis), uma vez que um botijão a R$ 130 corrói a sua chance de reeleição.

Isso sem contar que terceirizar é com ele mesmo. É público e notório que Bolsonaro espana sob pressão. Campeão olímpico na modalidade de Arremesso de Culpa à Distância, ele foge da responsabilidade como o diabo foge da cruz.

O ministro da Economia Paulo Guedes inspirou a fala do presidente ao dar uma entrevista coletiva em Washington DC, nos Estados Unidos, na quarta (13). "Quando o preço do combustível sobe, os mais frágeis estão com dificuldades. E que tal se eu vender um pouco das ações da Petrobras e der para eles esses recursos?", questionou.

É muita cara de pau uma pessoa que sempre defendeu a privatização da empresa usar os pobres como justificativa para chegar ao seu intento. Basicamente, o que ele propõe é aproveitar o momento de dificuldade do país para se desfazer do patrimônio e fazer a alegria do mercado financeiro. Vender pratos e talheres para comprar o almoço.

Ele não está propondo usar recursos da empresa para implementar programas de efeitos duradouros, como investimentos maciços em educação, saúde, habitação, reforma agrária. A ideia é basicamente garantir recursos na forma do Auxílio Brasil/Bolsa Família. Ou seja, para comer.

Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, alinhado ao governo de seu sócio Bolsonaro, defendeu a mesma coisa nesta quarta.

"Essa é a pergunta que tem que ser feita: então não seria o caso de privatizar a Petrobras? Não seria a hora de se discutir qual a função da Petrobras no Brasil? É só distribuir dividendos para os acionistas?", questionou à rádio CBN.

Lembrando que o governo é o maior dos acionistas e, portanto, recebe já maior fatia do lucro da empresa. Que vai para o caixa do governo. Que, por sua vez, tem que pagar os bilhões de emendas secretas distribuídas por Lira para garantir poder sobre deputados.

Se o presidente da Câmara está tão preocupado com os pagamentos de dividendos aos acionistas, deveria tomar coragem e promover uma discussão espinhosa sobre a relação entre o preço do petróleo e o dólar no país. Mas não vai fazer isso. Para apoiar o presidente, que funciona como sua galinha dos ovos de ouro, prefere tirar dinheiro do ICMS, que financia educação, saúde, habitação nos Estados.

O objetivo dos três é causar um barulho maior do que o ruído estridente dos preços subindo, distraindo a imprensa e a população. E vão conseguindo.