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Leonardo Sakamoto

Relatório da CPI vai apontar que Jair não foi incompetente, mas homicida

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/10/2021 11h39Atualizada em 18/10/2021 13h38

Às vésperas da apresentação e votação do relatório da CPI da Covid, que pode pedir o indiciamento de Jair Bolsonaro pelos crimes de homicídio por omissão, epidemia com resultado morte, infração de medidas sanitárias, emprego irregular de verba pública, incitação ao crime, falsificação de documento particular, charlatanismo, prevaricação, crimes contra a humanidade, crimes de responsabilidade e genocídio de indígenas, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) tentou terceirizar responsabilidades - seguindo a tradição da família.

"Algum governante já lidou com pandemia no Brasil? Querem cobrar do presidente Bolsonaro uma postura de respostas como se tivéssemos em tempos normais. Não é fácil tomar decisões. Então quando aparecia alguma coisa que dava esperança pra população o presidente Bolsonaro acreditava naquilo e buscava celeridade", afirmou.

Por exemplo, enfiou goela abaixo da população remédios sem eficácia para a covid-19 com o objetivo de empurrar o Brasil de volta às ruas. Temia que as necessárias quarentenas, que salvaram vidas mesmo com a sabotagem presidencial, poderiam impactar a economia e, portanto, sua reeleição. Mesmo hoje, passado mais de um ano do consenso científico de que hidroxicloroquina e ivermectina não funcionam para a doença, Bolsonaro segue repetindo esse charlatanismo até na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Mesmo que a comissão não impute a Bolsonaro todos os crimes elencados pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL), ainda assim terá reunido evidências de que ele deliberadamente sabotou o combate à pandemia sabendo dos riscos para os brasileiros.

Se um cone, uma cadeira, um chihuahua ou um biscoito estivessem no lugar de Bolsonaro comandando a República, muito menos mortes teriam ocorrido na pandemia porque eles não fariam nada, mas também não atrapalhariam o país.

O biscoito não conseguiria articular governadores e prefeitos visando a um plano nacional de quarentenas e lockdowns para salvar vidas. Mas Bolsonaro também não fez isso, pelo contrário, bombardeou qualquer tentativa nesse sentido.

E o biscoito não atuaria para sabotar o combate à covid-19. Não seria garoto-propaganda de remédios sem eficácia, não tentaria furar o isolamento social, não falaria mal de vacinas e do uso de máscaras, não teria ordenado o então ministro (sic) da Saúde Eduardo Pazuello a interromper a compra de vacinas em outubro do ano passado, não propagaria fake news sobre a doença. Não teríamos 600 mil mortos se um biscoito inútil fosse presidente. Mas infelizmente, o presidente não foi o biscoito, mas Bolsonaro.

Em 8 julho de 2020, Bolsonaro sancionou a lei aprovada pelo Congresso que reconhecia indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais como grupos de extrema vulnerabilidade durante a pandemia e que ações deviam ser tomadas para protegê-los. Porém, vetou trechos como a obrigação de distribuir materiais de higiene e limpeza para uso nas aldeias, além de garantir alimentos e água potável. Também foi contra a oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva a essas comunidades.

O Congresso derrubou o veto no mês seguinte, mas o governo não implementou um plano decente de atendimento a esses grupos, mesmo com decisões do Supremo Tribunal Federal que cobraram a efetividade de ações. Bolsonaro agiu consistentemente contra a saúde dos povos indígenas. Agora, acha um absurdo que a CPI queira responsabilizá-lo por isso.

Se Jair não tivesse feito nada e deixado as decisões para o Congresso e os técnicos, como teria feito o biscoito, pois é um biscoito, 400 mil menos mortes teriam ocorrido, de acordo com o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas. Mas ele atuou contra a vida. E, agora, precisa responder por isso.

Isso não é vingança, não é a mesma coisa que o justiciamento cometido pelos milicianos no Rio de Janeiro que são defendidos por ele. Isso é Justiça, dentro das "quatro linhas da Constituição", como gosta tanto de repetir.

Agora, a Procuradoria-Geral da República tem uma excelente oportunidade para provar que não é o mordomo presidencial e levar a questão ao Supremo Tribunal Federal. Hora de mostrar que não somos uma República de Bananas, nem de biscoitos. Ou de bolachas.