PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Gargalhada de Flávio reverbera entre bolsonaristas, que escondem a fome

20 out. 2021 - Senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) imita gargalhada do pai diante de crimes apontados pela CPI da Covid - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
20 out. 2021 - Senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) imita gargalhada do pai diante de crimes apontados pela CPI da Covid Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

21/10/2021 07h27

Vídeos da gargalhada forçada do senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) ao comentar a jornalistas o relatório final da CPI da Covid, que responsabilizou seu pai por crimes contra a humanidade e mais oito delitos, nesta quarta (20), correram por grupos bolsonaristas em aplicativos de mensagens e nas redes sociais, aos quais a coluna teve acesso, logo após ser dada no Congresso Nacional. Junto a ela, acusações contra o relator Renan Calheiros (MDB-AL) e capas falsas de jornais estrangeiros com inglês sofrível, dizendo que Bolsonaro foi considerado o melhor líder mundial no combate à pandemia.

Há uma estratégia para deslegitimar, junto aos simpatizantes de Jair Bolsonaro (sem partido), a sua parcela de responsabilidade pelas 605 mil mortes. A reprodução da gargalhada do senador Flávio Bolsonaro diante dos crimes que a CPI imputa a seu pai faz parte dela, levando bolsonaristas a atacarem a comissão. Mas maior preocupação de aliados do governo nas redes, neste momento, é afastar a culpa de Jair pela fome e a inflação, o que tem produzido uma campanha de ataques digitais aguerrida.

A última pesquisa Datafolha avaliou em 15% o número de brasileiros que acreditam em absolutamente tudo o que o presidente diz. Esse público - que é seu porto seguro mesmo em períodos de baixa popularidade e está com ele para o que for preciso, inclusive participando de micaretas golpistas em datas cívicas - é alimentado periodicamente com material para guerra política. Como os vídeos de Flávio.

Mas apesar da gravidade que as evitáveis mortes na pandemia representam, o Gabinete do Ódio, estrutura informal montada dentro do Palácio do Planalto para atacar opositores e difundir desinformação, tem monitorado de perto e produzido reações mais agressivas a reportagens ou análises que relacionam Jair Bolsonaro com a fome, o desemprego e a pobreza na pandemia.

Esse tipo de conteúdo tem sido prontamente e violentamente rechaçado por apoiadores do presidente, sejam grandes empresários, parlamentares e influenciadores, usando argumentação baseada em conteúdos falsos. Logo em seguida, pacotes de perfis falsos no Twitter, muitos deles ostentando nenhum seguidor, curtem essas postagens, tentando garantir a ela credibilidade e reputação através dos likes.

Há um esforço conjunto e organizado para rebater a principal razão de queda da popularidade do presidente. Esse esforço é ainda maior do que evitar que em Jair cole a pecha de serial killer pandêmico.

Bolsonaro insiste em afirmar que a fome foi gerada pelas quarentenas baixadas para evitar mortes. A história não é bem assim. Caso ele não tivesse sabotado sistematicamente as medidas de isolamento social e, ao mesmo tempo, combatido o uso de máscaras e comprado vacinas da Pfizer e da CoronaVac ainda no ano passado, a pandemia seria mais curta e a economia teria voltado a um (quase) normal antes, com menos fome, menos pobreza, menos desemprego, menos mortos.

Pelo contrário, quando a fome apertou, o presidente cancelou o auxílio emergencial em 31 de dezembro e só retomou em abril, com valores insuficientes de R$ 150, R$ 250 e R$ 375. Ressalte-se que, no final do ano, eram 19,1 milhões de famintos, calculados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Naquele momento, Bolsonaro já havia baixado o auxílio emergencial de R$ 600/R$ 1200 (valores conquistados graças à intervenção do Congresso) para R$ 300/R$ 600.

Desde então, a fome piorou por causa da alta da inflação. O comportamento de ataques do presidente às instituições e a falta de liderança na economia elevaram a insegurança e ajudaram na subida do dólar. Dólar mais alto impacta no preço do gás de cozinha e dos combustíveis e, por conseguinte, na inflação dos alimentos. Mais fome, portanto.

As redes do presidente tentam blindar sua base sobre os crimes imputados a Bolsonaro pelo relatório em análise na CPI, municiando seus militantes para que deslegitimem as acusações daqui às eleições do ano que vem. Nesse sentido, ela teve uma ajuda no debate simbólico ao ver retiradas as acusações de genocídio indígena e de homicídio.

Mas os arautos dessas redes avaliam que, junto ao grosso do eleitorado mais pobre, a fome e a inflação são duas palavras que pegam mais forte que prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado morte, infração a medidas sanitárias preventivas, emprego irregular de verba pública, incitação ao crime, falsificação de documentos particulares, crime de responsabilidade e crimes contra a humanidade - crimes dos quais Jair é acusado pelo relatório da CPI.

A depender da duração da crise econômica, tentar blindar o presidente dos efeitos da fome e da inflação será uma tarefa inglória. Pois nem o meme mais engraçadinho ou o vídeo mais revoltado é capaz de jogar uma cortina de fumaça em imagens de brasileiros que disputam lixo e ossos para sobreviver.