PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Com Bolsonaro, Guedes tem seu Dia de Pazuello: um manda, o outro obedece

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

22/10/2021 18h10

"Alguém aqui é contra dar R$ 400 aos mais pobres?" Paulo Guedes usou a pergunta um rosário de vezes, nesta sexta (22), durante coletiva à imprensa ao lado do presidente Jair Bolsonaro em que desmentiu que estaria balançando no cargo. Queria inocular um motivo incontestável para ter atropelado de forma oportunista o teto de gastos públicos - regra que ele mesmo considerava sagrada até ver seu emprego em risco.

O rompante humanístico contrasta com o histórico do ministro e do presidente, que leva a crer que ambos são mais sintonizados com o que pensa o deputado Justo Veríssimo, personagem do imortal Chico Anysio, ou seja, que o pobre se exploda. E, se possível, exploda após depositar seu voto na urna em outubro do ano que vem. Ou seja, pura hipocrisia. Afinal, o governo Bolsonaro foi o responsável por turbinar a fome no ápice da segunda onda da covid-19, sem preocupação alguma com os pobres.

Após ter reduzido o auxílio emergencial de R$ 600 para R$ 300, o que contribuiu para chegarmos à marca de 19,1 milhões de famintos, Guedes e Bolsonaro interromperam o benefício em 31 de dezembro, vindo a retomá-lo apenas no início de abril. A justificativa? Responsabilidade fiscal.

Ou seja, no período mais mortal da pandemia, quando muitas famílias tiveram que se refugiar em casa para não morrer, o governo que, agora, arrota amor aos pobres, não garantiu subsídios para que permanecessem sãos, salvos, abrigados (Bolsonaro, aliás, vetou a proibição de despejos) e alimentados.

A reprovação do presidente caiu de 44%, em junho de 2020, para 32%, em dezembro, segundo o Datafolha, por efeito do pagamento do auxílio emergencial. Com sua interrupção, ela voltou a subir entre os mais vulneráveis. Guedes e Bolsonaro retomaram o benefício, em abril, com um piso de apenas R$ 150 - o que foi insuficiente para alimentar a população e, consequentemente, mudar a curva de popularidade.

Em setembro, a reprovação estava em 53%, já com os efeitos de uma inflação bombada em parte pela instabilidade trazida pelo golpismo diário de Bolsonaro e pela falta de rumo econômico de Guedes.

Deputados do centrão, no mês de abril deste ano, já recomendavam ao governo que retomasse o auxílio emergencial ou aumentasse o Bolsa Família em 2022 a fim de garantir votos. O presidente soltou vários balões de ensaios nesse sentido, mas sempre esbarrava na equipe de Guedes. Que, diga-se de passagem, nunca se preocupou se Bolsonaro espancava os direitos fundamentais, contanto que não gastasse além das receitas. Agora, pariu o primeiro marco de sua campanha à reeleição.

Ao invés de salvar vidas e evitar a fome ao longo deste ano, o governo guardou seu foco para os dois últimos meses de 2021 e o ano eleitoral. O Auxílio Brasil, que vai substituir o Bolsa Família, pagará R$ 400 - mas só até o final do ano que vem. Não é um programa social, mas um vale-reeleição.

Como já disse aqui mais de uma vez, ministros de Bolsonaro demonstram mais amor pelo cargo do que por suas convicções técnicas. Até porque sabem que essa é a grande chance de suas vidas, uma vez que não teriam uma em um governo democrático e racional. Fazem de tudo para continuar sentindo aquele quentinho de poder, com carro oficial, café sempre fresco e aspones abrindo suas portas. É um comportamento típico de homenzinhos, que tentam, desesperadoramente, lustrar diminutas biografias.

A entrevista à imprensa desta sexta foi um teatro criado para passar a ideia de que Guedes continua forte, apesar da clara capitulação à estratégia e necessidades do centrão. Cálculos apontam que essa mexida toda vai gerar entre R$ 83 e 100 bilhões, muito mais do que o Auxílio Brasil precisaria. Podemos estar vendo o início de mais uma farra de emendas parlamentares.

O que é uma contradição em si, uma vez que um ministro forte não precisa que um presidente diga que ele é forte. Como diriam os filósofos Vinicius de Moraes e Baden Powell, "o homem que diz sou, não é".

Na verdade, foi uma cena de humilhação pública. E Guedes, chateado, aproveitou o momento para mandar torpedos contra a ala política do governo, o Congresso e a imprensa. "Sentiu", como também diria o grande Tino Marcos.

Isso lembra a, hoje, icônica cena de submissão pública à qual o general Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, se colocou em 22 de outubro do ano passado. Após anunciar a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac e ter sido desautorizado publicamente por Bolsonaro, Pazuello recebeu uma visita do presidente e gravou um vídeo ao seu lado para afastar boatos de que seria demitido ou se demitiria.

O cancelamento do contrato para compra da vacina desenvolvida na China e produzida pelo Instituto Butantan se inseria em uma lógica doente de disputa eleitoral com o governador de São Paulo, João Doria. Por conta de decisões como essa, muitos sofreram. Tal qual muitos sofreram por decisões econômicas tomadas com sentido eleitoral.

Ao lado de Jair Bolsonaro, Guedes teve hoje seu Dia de Pazuello: "um manda, o outro obedece". Guedes parece não se importar, contanto que continue sendo chamado de ministro. Nem o pessoal do autoengano, que ainda vive a fantasia de que Guedes pode controlar Bolsonaro.