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Leonardo Sakamoto

Guedes luta para salvar dois empregos no Brasil. Já Bolsonaro, apenas um

Ministério da Economia Paulo Guedes e presidente Jair Bolsonaro                              - MAURO PIMENTEL / AFP
Ministério da Economia Paulo Guedes e presidente Jair Bolsonaro Imagem: MAURO PIMENTEL / AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

23/10/2021 13h01

Após terem suspendido o auxílio emergencial de R$ 300 no início do ano, momento mais letal da pandemia, contribuindo com a fome e as mortes por covid-19, Jair Bolsonaro e Paulo Guedes apresentam o governo como "socialmente responsável" ao anunciar um Auxílio Brasil de R$ 400. Como bons mercadores do caos, criaram o problema e agora vendem a solução.

Guedes empurrou o retorno do auxílio emergencial o máximo que pode nos três primeiros meses do ano, torcendo para que a pandemia arrefecesse e ele se tornasse desnecessário. Quando isso ficou insustentável (o centrão percebeu que a demora no retorno do benefício respingaria neles eleitoralmente), o ministro fez chantagem grossa, condicionando o pagamento de novas parcelas do auxílio emergencial à criação de "um novo marco fiscal, robusto o suficiente para enfrentar eventuais desequilíbrios". Tentou aprovar uma de suas antigas pautas - o fim da exigência de gastos mínimos do poder público em educação e saúde - como contrapartida.

Ou seja, dar autorização para remover dinheiro do SUS (Sistema Único de Saúde) e do recém-renovado Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica) para devolver o auxílio. Tirar dos pobres para dar aos paupérrimos, portanto. A proposta acabou enterrada diante do absurdo que representava, mas a demora aprofundou a fome, que, em dezembro, já ultrapassava 19 milhões.

Ao mesmo tempo, a enrolação para a retomada do auxílio serviu politicamente a Jair Bolsonaro. A suspensão do benefício durante uma quarentena aplicada por conta da escalada de contaminações ajudou sua campanha para empurrar pessoas de volta às ruas, em busca de qualquer serviço que garantisse sobrevivência.

Desde o começo da pandemia, o governo adotou a estratégia de forçar uma contaminação em massa, contando com uma inviável imunidade de rebanho. Bolsonaro queria todos voltando ao trabalho para que o impacto econômico fosse menor e isso lhe causasse menos transtornos em seu caminho para a reeleição. Com a ajuda do Gabinete Paralelo da Saúde, formado por negacionistas, e dos dados manipulados da Prevent Senior, tentou convencer os brasileiros que remédios inúteis, como a cloroquina e a ivermectina, os protegeriam da morte.

O pior é que, ao sabotar o isolamento social, Bolsonaro e Guedes contribuíram para o prolongamento da pandemia e, portanto, para a extensão da crise econômica e do desemprego, uma vez que quarentenas malfeitas reduzem mais lentamente a circulação do vírus do que lockdowns bem cumpridos.

Pagar uma renda aos trabalhadores pobres neste momento é mais do que fundamental, seja via extensão do auxílio emergencial, seja pelo Auxílio Brasil - o cover malfeito do Bolsa Família de Bolsonaro. Mas isso deveria ter sido planejado desde o ano passado, construindo um projeto robusto para garantir inserção social e apontando de onde sairiam os recursos. Isso, claro, é esperar demais em um governo voltado mais ao desmonte do que à construção. E que não sente empatia por ninguém além de si mesmo.

Apesar dos 14,1 milhões de desempregados, Guedes luta bravamente para salvar dois empregos no Brasil: o do presidente e, portanto, o dele. Já Bolsonaro, apenas o dele. E, se chegar a hora e Paulo for uma pedra no meio da reeleição, Jair vai pedir o desquite, mesmo que, no fundo, goste de seu ministro genuinamente bolsonarista.

Ouvir Bolsonaro e Guedes dizer que estão preocupados com o "social" quando a palavra "reeleição" está estampada em suas testas, dá uma azia grande - ainda mais depois de suas sabotagens aos mais pobres no início do ano. Tão grande quanto ver o mesmo mercado financeiro, que hoje está em pânico com um rombo no teto de gastos, ter se calado diante de ataques às instituições democráticas, de micaretas golpistas, do desmatamento da Amazônia e, claro, de mais de 605 mil mortos.