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Leonardo Sakamoto

Com a gasolina a R$ 8, Bolsonaro não vai muito longe com apenas R$ 400

Presidente Bolsonaro pilota moto sem capacete acompanhado do empresário Luciano Hang - Anderson Riedel | Palácio do Planalto | Divulgação
Presidente Bolsonaro pilota moto sem capacete acompanhado do empresário Luciano Hang Imagem: Anderson Riedel | Palácio do Planalto | Divulgação
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

25/10/2021 20h22

Com os últimos aumentos na Petrobras, o preço do botijão de gás chega a R$ 135 e o litro de gasolina se aproxima de R$ 8 em algumas partes do país. O custo do transporte mais alto acelera a inflação, reduzindo o poder de compra. Tornam-se mais frequentes imagens de famílias disputando restos de comida em caminhões de lixo ou brigando por ossos de boi. E, com elas, cenas de Bolsonaro falando bobagem para jogar fumaça em um país em chamas.

Hoje, os R$ 400 que ele pretende pagar como Auxílio Brasil para 17 milhões de famílias não cobrem uma cesta básica em nenhuma das 17 capitais analisadas mensalmente pelo Dieese: São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis, Rio, Vitória, Campo Grande, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte, Goiânia, Fortaleza, Belém, Natal, Recife, Salvador, João Pessoa e Aracaju. E, ao que tudo indica, a situação só vai piorar.

Bolsonaro teve uma melhora em sua popularidade quando o auxílio emergencial a R$ 600/R$ 1.200, no primeiro semestre de 2020, começou a causar efeitos políticos. A quantidade de pessoas que achava seu governo ruim e péssimo caiu de 44%, em junho de 2020, para 32%, em dezembro, segundo o Datafolha.

Mas, daí, ele interrompeu o pagamento do benefício no último dia do ano, momento em que a covid-19 começava a produzir sua segunda (e maior) montanha de mortos - hoje, em 606 mil. Paulo Guedes e Jair Bolsonaro retomaram o auxílio em abril, com um piso de apenas R$ 150 - o que foi insuficiente para alimentar a população e, consequentemente, mudar a curva de popularidade.

Nesse meio tempo, Guedes empurrou o auxílio com a barriga em nome da "responsabilidade fiscal" e Bolsonaro para "convencer" as pessoas a voltarem às ruas. Em setembro, sua reprovação estava em 53%, com o impacto de uma inflação bombada em parte pela instabilidade trazida pelo golpismo diário de Bolsonaro e, em parte, pela falta de rumo econômico de Guedes.

Considerando que a primeira parcela do auxílio emergencial, em 2021, chegou a 39,1 milhões de famílias (número já menor que o de beneficiárias no ano passado) e que, agora, apenas 17 milhões vão receber o Auxílio Brasil de R$ 400, outras 22 milhões vão ficar ao Deus dará.

Com isso, o esforço de Paulo Guedes para parecer uma pessoa que se preocupa tanto com pobres que até aceita abrir mão do teto dos gastos poderá, no limite, estancar a queda na popularidade do patrão, mas não revertê-la. Aliás, o ministro da Economia é um péssimo ator: "Não dá para dar mais R$ 30 bilhões para os mais frágeis em um momento terrível como esse?" e "Alguém aqui é contra dar R$ 400 aos mais pobres?" foram duras de engolir. Quem esqueceu suas declarações sobre domésticas na Disneylândia e filhos de porteiros na universidade que acredite nele.

Ao que tudo indica, para fazer diferença eleitoral, o valor teria que ser maior e o público também. Nesse sentido, quem pode novamente sair em socorro a Bolsonaro é o Congresso Nacional, prorrogando o auxílio emergencial para as famílias que estão fora do Auxílio Brasil. E garantindo um valor de R$ 500 a R$ 600 a todos, o que é o mínimo em termos de decência neste momento. Muitos parlamentares se preocupam com a sobrevivência do povão em meio à pandemia, outros que são apenas oportunistas, mas da somatória, pode surgir algo bom para Jair.

Assim, será cumprida a "profecia" de alguns aliados que diziam que Bolsonaro tinha que garantir o auxílio emergencial em 2022 para ter o voto da maioria da população, que ganha menos de dois salários mínimos. Custe o que custasse, inclusive ignorando a fome em 2021.

No começo do ano passado, o Congresso Nacional atropelou a vergonhosa proposta de Guedes de auxílio emergencial de R$ 200 e subiu o valor. Agora, pode repetir o jogo. Considerando que isso seria feito sem aumentar impostos de ricos, sem cortar subsídios e sem mexer em emendas parlamentares, o próximo presidente, seja quem for, pode governar destroços.