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Leonardo Sakamoto

Com censura a questões, governo transforma Enem em teste de bolsonarismo

Anderson Riedel/PR
Imagem: Anderson Riedel/PR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

20/11/2021 15h52

Exemplos da mão peluda de Jair Bolsonaro censurando a prova do Enem têm pipocado após a demissão coletiva de servidores do Inep, órgão responsável pela prova, devido à interferência do governo. Com a imposição de mudanças que alinham o exame à visão de mundo do presidente, muito em breve os candidatos vão ter que se preparar assistindo às suas lives de quinta e lendo o que Carluxo posta no Twitter do pai.

Jair já demandou ao ministro da Educação, Milton Ribeiro, que tratasse o "golpe de 1964" como "revolução" na prova do Enem, informação revelada pela Folha de S.Paulo desta sexta (19). Não ficaria admirado se "pandemia" fosse tratada como gripezinha", "fome" como "dieta" e "inflação" como "aumentinho".

Isso sem contar a censura vagabunda a temas que desagradam o presidente. Por exemplo, como ele não concorda com as imagens de satélite que mostram recordes de destruição da floresta amazônica em seu mandato, houve veto até de uma questão que usava uma tirinha da Turma da Mônica cujo tema era desmatamento, segundo revelou o jornal O Globo deste sábado (20).

Bolsonaro acredita que foi eleito para empreender uma Cruzada, no significado medieval da palavra. Quer libertar o país tanto de um comunismo inexistente quanto de comportamentos e costumes progressistas - que, em sua opinião, são a origem do mal. Também tenta reescrever a História sob seu ponto de vista, já tendo defendido até que o nazismo era de esquerda.

As bobagens não são apenas cortina de fumaça com objetivos políticos ou exagero para manter seguidores excitados e prontos para a batalha virtual. Bolsonaro realmente acredita nisso por mais ridículo que pareça.

Alimentado por paranoias e teorias da conspiração, muitas de suas ações seguem pelo caminho iluminado pela "filosofia" de gurus que fogem à francesa do Brasil para não serem intimados pela Polícia Federal.

Quer tornar o Brasil algo à sua imagem e semelhança.

Como já disse aqui, ele não age como presidente, mas como se comandasse o "Ministério da Verdade" - apresentado no romance "1984", de George Orwell, com a função de ressignificar os registros históricos e qualquer notícia que seja contrária ao próprio governo.

Quer controlar o presente para controlar o passado e controlar o passado para controlar o futuro, como escreveu o criador do Big Brother (o do livro "1984", não o reality). Não à toa que Bolsonaro tenha celebrado que a prova do Enem está ficando com "a cara do governo", ou seja, caminhando - na sua opinião - para ser um instrumento de sua guerra cultural.

O presidente tem demonstrado acreditar que sua palavra é o que dá significado ao mundo e as coisas são o que ele diz ser, características de governantes autoritários. Apesar de parte da população achar isso um ultraje, seus seguidores encaram isso como música.

O que mostra que Bolsonaro afirma gostar da passagem bíblica do "Conhecereis a verdade e ela vos libertará" (João 8:32), mas, de fato, se identifica com "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (João 14:6). Nunca é demais lembrar que Jair Messias leva seu nome ao pé da letra.