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Leonardo Sakamoto

Lira truca compra de votos do Bolsolão, mas Delegado Waldir pede 'seis'

Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, e o presidente da República, Jair Bolsonaro - Adriano Machado/Reuters
Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, e o presidente da República, Jair Bolsonaro Imagem: Adriano Machado/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

22/11/2021 15h30

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), desafiou, em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada nesta segunda (22) e realizada na última sexta (19), a qualquer parlamentar vir a público para dizer que "alguém ofereceu emendas em troca de votar uma matéria". Teve o pedido rapidamente atendido.

O site The Intercept Brasil publicou, no sábado (20), uma entrevista exclusiva com o deputado federal Delegado Waldir (PSL-GO), ex-líder do PSL, confirmando que o governo Bolsonaro liberou emendas em votações importantes. A da Reforma da Previdência custou R$ 20 milhões em emendas para cada, por exemplo.

A coincidência foi percebida pelo repórter Guilherme Mazieiro, do Intercept, que entrevistou Waldir nos meses de outubro e novembro, em sua conta no Twitter. O ex-bolsonarista afirmou a ele que votos para a eleição do próprio Lira para o comando da Câmara foram vendidos a R$ 10 milhões em emendas do orçamento secreto para cada deputado. E que ele mesmo recebeu a oferta.

Delegado Waldir é mais um dos nomes da longa lista de ex-aliados que Bolsonaro foi deixando pelo caminho e que tem voltado para assombrá-lo. Ficou famoso o áudio de uma reunião, em outubro de 2019, em que ele aparece chamando o presidente de "vagabundo" e dizendo que iria implodi-lo.

A gravação foi divulgada por Daniel "Surra de Gato Morto" Silveira (PSL-RJ), que ficou famoso por rasgar uma homenagem a Marielle Franco e ser preso por ameaçar ministros do STF. Naquele momento, Waldir estava revoltado pois o presidente estaria articulando sua destituição como líder do partido pelo qual se elegeu.

Congressistas mandaram bilhões de reais aos seus redutos eleitorais, sem transparência ou possibilidade de controle público, através das emendas de relator. O "orçamento secreto", que funciona como um Bolsolão, o mensalão de Jair, foi revelado pelo jornal O Estado de S.Paulo, em uma série de reportagens a partir de maio deste ano.

Entre as revelações, estava a compra, através dessas emendas, de tratores e equipamentos agrícolas superfaturados, sob a suspeita de que parte dos recursos voltaria aos parlamentares. Após ações movidas por partidos de oposição, o plenário do Supremo Tribunal Federal confirmou liminar suspendendo a farra. O que irritou Lira e Bolsonaro.

Os deputados poderiam ter usado a mesma criatividade com a qual montaram e abastecem essa estrutura de pagamentos para encontrar formas de bancar os R$ 400 do Auxílio Brasil sem passar pela PEC dos Precatórios - um calote em dívidas públicas que dá uma banana até para aposentados. Mas a proposta não nasceu para matar a fome dos mais pobres e sim garantir até R$ 30 bilhões a mais no orçamento a fim de deputados gastarem, na forma de emendas, em seus redutos nas eleições.

Num ciclo vicioso de sacanagem, o governo empenhou R$ 3,3 bilhões em emendas do orçamento secreto às vésperas da votação da PEC na Câmara. Ou seja, deputados receberam dinheiro (a conta teria sido de até R$ 15 milhões por cabeça em emendas) para aprovar um projeto para que recebam ainda mais dinheiro.

Quem tem definido a destinação dos recursos é o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, que atende aliados e ignora adversários. Isso aumenta o seu poder diretamente sobre os deputados e reduz a influência dos partidos. A relatora do caso, ministra Rosa Weber, explicou como funciona o esquema de compra de fidelidade da base no Congresso Nacional:

"Causa perplexidade a descoberta de que parcela significativa do orçamento da União Federal esteja sendo ofertada a grupo de parlamentares, mediante distribuição arbitrária entabulada entre coalizões políticas, para que tais congressistas utilizem recursos públicos conforme seus interesses pessoais, sem a observância de critérios objetivos destinados à concretização das políticas públicas a que deveriam servir as despesas", afirmou a ministra.

Por conta da reportagem do Intercept, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) entrou, neste final de semana, com uma representação contra Lira e o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, general Luiz Eduardo Ramos, pedindo apuração da prática de improbidade administrativa e de crime de responsabilidade.

"Estamos diante de um dos maiores esquemas de compra de votos no parlamento da história da República. Um esquema que corrompe a liberdade de voto no parlamento e a separação dos poderes prevista na Constituição", afirma Valente.