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Leonardo Sakamoto

Polícia quer justificar chacina usando ficha de mortos, dizem analistas

22.nov.2021 - Corpos achados por moradores no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ) - Marcos Porto/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
22.nov.2021 - Corpos achados por moradores no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ) Imagem: Marcos Porto/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

23/11/2021 15h48

A Polícia Civil do Rio de Janeiro divulgou a lista de identificação dos mortos na chacina do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, acompanhada da ficha criminal das vítimas que tinham passagem pela polícia. Especialistas ouvidos pela coluna afirmam que isso serve para tentar legitimar a letalidade da operação da PM, que terminou com oito civis mortos até agora.

Para elas, a divulgação da ficha ajuda na construção de uma narrativa de que há pessoas que merecem morrer por terem registro na polícia.

"Citar as anotações criminais das vítimas da intervenção policial no Salgueiro soa como forma de legitimar a operação da Polícia Militar, como se este fato em si desse ao policial o direito de atirar", afirma Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

A opinião é compartilhada por Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil. "Essa tentativa da polícia de justificar a chacina é ultrajante. Isso é desrespeito aos parâmetros mínimos do devido processo legal e dos direitos humanos", diz.

Ambas afirmam que o Brasil não tem pena de morte e que cabe aos agentes de segurança públicos fazer cumprir o que está no ordenamento jurídico, com a Polícia Militar detendo suspeitos e a Polícia Civil investigando as responsabilidades. Ou seja, garantir aos criminosos o rigor da lei e não a arbitrariedade policial.

Além disso, os agentes do Bope envolvidos na ação não sabiam das fichas criminais dos envolvidos antes de puxar o gatilho. E, se tiveram tempo para checar, isso é indício de execução.

O Complexo do Salgueiro foi palco da operação policial após o assassinato de um sargento da PM por criminosos. Os corpos foram retirados por moradores de um manguezal, nesta segunda (22), e, segundo eles, apresentam marcas de tortura. Em entrevista ao UOL News, a defensora pública Maria Júlia Miranda afirmou que a ação se caracteriza como uma "operação vingança".

'Polícia agiu errado e continua agindo ao arrepio da lei'

A Chacina do Salgueiro acontece seis meses depois da Chacina do Jacarezinho. Logo após 27 civis e um agente serem mortos em uma ação violenta do poder público, no dia 6 de maio, o delegado do Departamento Geral de Polícia Especializada do Rio disse em coletiva à imprensa: "Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante".

Cinco meses depois, o Ministério Público discordou, apresentando denúncia contra policiais por execução e manipulação da cena do crime. Por exemplo, Omar Pereira da Silva estava rendido, ferido e encurralado em um quarto de criança e foi executado sumariamente. Depois, os policiais manipularam a cena do crime, removendo o corpo sem perícia, plantando uma granada e apresentando armas que não pertenciam à vítima, para justificar a sua morte, segundo o MP-RJ.

Uma colega jornalista que cobre sistematicamente violência policial destaca que as forças de segurança pública no Rio costumam divulgar a ficha criminal dos envolvidos quando interessa à corporação. E narra a dificuldade de conseguir a informação quando a polícia se nega a fornecer o dado.

"Não é a primeira vez que fazem isso, nem será a última, da mesma forma que, infelizmente, esta não é a primeira chacina e também não será a última", avalia Jurema Werneck. "A polícia agiu errado e continua agindo ao arrepio da lei."