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Leonardo Sakamoto

Salles chama Moro de comunista e indica que disputa na direita será surreal

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/11/2021 16h04

"O Moro é comunista", afirmou o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, nesta quarta (24), no programa "Morning Show", da Jovem Pan. Mesmo rebatido por outras pessoas, ele reafirmou "Vai dizer que o Moro não é de esquerda?"

Sergio Moro, ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública de Bolsonaro, pode ser muita coisa, mas não é comunista, nem de esquerda. Por exemplo, ele defendeu o excludente de ilicitude, ou seja, um salvo-conduto para policiais que matarem em serviço quando trabalhava para Jair, pauta da direita ultraconservadora.

Salles, o mais competente dos ministros e ex-ministros do atual governo, por ter conseguido colocar em prática a agenda dos apoiadores de Bolsonaro, sabe disso. O que nos lembra que o termo há muito foi esvaziado de seu sentido original e serve para designar tudo o que uma parcela da extrema direita tacha como ruim.

A declaração deve ser entendida em meio à disputa pelos eleitores da direita que está sendo travada entre o bolsonarismo e o lavajatismo. Salles, ao fazer o comentário, usa um "dog whistle" - mensagem política que parece estranha ou sem sentido para a população em geral, mas causa impacto em um grupo específico. E o bolsonarismo-raiz entende bem o que ele diz. E se pinta para a guerra.

Não é de hoje que a extrema direita ao redor do mundo tem atuado para que seus seguidores relacionem qualquer coisa ligada à palavra "comunismo" como algo terrível antes mesmo de receber mais informações sobre o assunto. Com isso, muita gente aprendeu apenas a repudiar, sem embasamento algum. E, acredite, há subsídio para poder criticar os regimes que tentaram colocar o comunismo em prática.

Dessa forma, ao invés de uma discussão econômica ou filosófica sobre a propriedade comum dos meios de produção, entende-se que comunista são "vagabundos que não gostam de trabalhar", que "pervertem sexualmente as pessoas de bem", que "destroem as famílias através das drogas e da pedofilia". Em alguns casos, há até citação de "bilionários comunistas", "cavaleiros templários comunistas" e, os meus preferidos, "illuminati comunistas".

Diante do esvaziamento de seu conteúdo e sua associação forçada com tudo o que há de ruim, a palavra e suas variações acabaram virando uma espécie de "selo do mal". Chamar alguém de comunista virou uma ofensa grave para um grupo de pessoas mesmo que elas não façam ideia o que seja, de fato, o comunismo.

Hoje é 'comunismo'. Amanhã, quem sabe, será 'democracia'

Tive a oportunidade de ouvir no Congresso Nacional, anos atrás, que a fiscalização de trabalho escravo é coisa de "comunista". Ou seja, o combate ao trabalho escravo, que, em última instância, significa garantir que o contrato de compra e venda de força de trabalho, base do capitalismo, seja feito corretamente, é expressão do comunismo. Não faltou banco de escola a esse povo, pelo contrário, sabem muito bem o que estão fazendo. O que significa que faltam escrúpulos.

Tempos atrás perguntei a um cidadão que me parou em via pública me chamando de comunista o que era comunismo. A cada vez que ele gritava os lugares-comuns equivocados de sempre, eu fazia, com muita calma, novo questionamento. Afinal, aceitaria o rótulo se ele me explicasse por que eu sou comunista. Foram quatro sessões de xingamentos intercalados com coisas como "porque você não tem Jesus no seu coração" ou "porque você não respeita o Exército".

Essa situação gera um sentimento de pena. Porque o que foi feito com aquele ser humano, com o depósito contínuo de bobagens e ódio, ocupou todo o lugar que estaria destinado à sua capacidade de raciocínio. Ele poderia criticar abertamente o comunismo, se soubesse o que ele é. Mas, tendo desistido de controlar os rumos de usa vida e terceirizado sua reflexão, tornou-se uma alegoria, não um indivíduo.

Ironicamente, Bolsonaro enche os pulmões para defender a individualidade, mas transforma seus seguidores, através do depósito de camadas de desinformação, em zumbis.

Provavelmente, muitos abraçam um discurso que lhes dá respostas por causa da incerteza do mundo que os cerca. Ou seja, preenchem as lacunas à sua frente, que lhes davam insegurança, com mentiras - mesmo que elas não se sustentem diante de perguntas de um desconhecido na rua.

Num momento em que o presidente da República diariamente trabalha para alimentar uma parcela de seguidores com paranoias e conspirações, faz-se mais do que nunca necessário tentar estabelecer pontes. Isso não significa passar a mão na cabeça de racistas, machistas, fascistas e afins, mas tentar estabelecer diálogo com quem, por ignorância, repete palavras sem entender o seu significado.

Dar as costas só vai fazer com que mais palavras sejam esvaziadas de sentido e transformadas em xingamento. Hoje é "comunismo". Amanhã, quem sabe, será "democracia".

Em tempo: Ricardo Salles ainda emendou que Moro é "centro-esquerda, é um tucano". Vale lembrar que ele trabalhou, então, para "comunistas" durante um longo tempo, pois foi secretário particular e, depois, secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo de Geraldo Alckmin, na época, no PSDB.