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Leonardo Sakamoto

Com covid-19 em queda, Bolsonaro quer fronteira aberta para o coronavírus

Cemitério em Manaus (AM) em meio à pandemia de coronavírus - Bruno Kelly/Reuters
Cemitério em Manaus (AM) em meio à pandemia de coronavírus Imagem: Bruno Kelly/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

25/11/2021 11h51Atualizada em 25/11/2021 14h56

A Anvisa recomendou, nesta quinta (25), que o governo federal exija certificado de vacinação contra covid-19 para liberar a entrada de estrangeiros no Brasil, mas o desejo de Jair Bolsonaro tem sido simplesmente abrir as fronteiras, segundo apurou o jornal Folha de S.Paulo. Se for feita a sua vontade, vai garantir livre acesso de novas mutações do coronavírus à nossa população.

A entrada no país através de voos internacionais vem demandando apenas o resultado negativo de um teste de covid-19 e uma declaração de saúde, indo na contramão do que vêm fazendo governos racionais. Já as fronteiras terrestres estão fechadas, com algumas exceções. Para passarem a valer, as recomendações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária têm que ser aceitas pelo Ministério da Saúde.

Ou seja, o ministério vai ter que bater de frente com o que vem defendendo Bolsonaro e seus aliados, que repudiam a adoção de certificados e passaportes de vacinação no país, colocando em risco a saúde pública e ajudando a retardar ainda mais a retomada segura das atividades econômicas.

Há sadismo, mas também tem método nesse comportamento.

Apenas os bolsonaristas mais apaixonados duvidam do pouco apreço de Jair à vida humana, mesmo diante das mais de 613 mil mortes, das quais 400 mil poderiam ter sido evitadas - número do epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas - se tivéssemos governo. Para que ninguém esquecer desse apreço, ele repetiu à exaustão diante de quem perdia parentes e amigos, "lamento, mas todos nós vamos morrer um dia".

Mas Bolsonaro também acredita que não pode abandonar sem uma boa desculpa a sua narrativa de negacionismo e sua prática de sabotagem, pois isso seria um reconhecimento de que tudo o que fez e deixou de fazer até agora levou à morte, à fome e ao desemprego. Se ele não voltou atrás no momento em que mais de 4 mil morriam todos os dias, não seria agora, com cerca de 200 óbitos diários, que assinaria o que acredita ser o seu atestado de culpa.

Mesmo que isso signifique proteger a população, uma vez que há locais com baixas taxas de vacinação que podem funcionar como um fábrica de novas variantes. Algumas, talvez, com potencial de furar o bloqueio dado pela imunização.

Além disso, quanto mais pisar na ciência, mais provocará suspiros entre o naco terraplanista de seus seguidores. E quanto mais distorcer a compreensão de direitos e deveres e de riscos à saúde pública, clamando pela "liberdade individual de não se vacinar", mais irá gerar admiração entre a turma do "cada um por si e Deus acima de todos".

Turma essa que tem arrepio só de ouvir na exigência de certificado para entrar em ambientes fechados.

Enquanto cai o número de mortos devido ao avanço da vacinação (não graças a Bolsonaro, que fez de tudo para atacar imunizantes, da CoronaVac à Pfizer), crescem a fome e a inflação. O presidente afirma que a culpa por isso é dos que defenderam o isolamento social para combater a pandemia. Mentira. Caso não tivesse atacado sistematicamente as medidas de isolamento social e, ao mesmo tempo, combatido o uso de máscaras, ignorado ofertas de vacinas e incentivado remédios inúteis, a pandemia seria mais curta, com menos mortos e menos desemprego.

Em nossa mais importante guerra, o capitão que nos governa abraçou o inimigo, o coronavírus, defendendo que a melhor forma de pará-lo seria deixando que ganhasse. Agora, insatisfeito com o tamanho da vitória, parece que querer dar um salvo-conduto ao SARS-COV-2 para que termine o serviço.

Em última instância, ele pode terceirizar a responsabilidade, dizendo que queria não pedir o certificado, mas a Anvisa mandou. Mas a agência não obrigou nada e sim recomendou. A decisão final é dele, o que deve ser terrível para o inimputável Jair.