PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Férias de Jair retratam presidente que foge de crise e não mastiga camarão

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/01/2022 15h49

Jair Bolsonaro afirmou, nesta quarta (5), que não estava de férias no Guarujá (SP) e em São Francisco do Sul (SC) quando, de fato, estava. Ao tratar acontecimentos vistos por milhões de brasileiros como um delírio coletivo, o presidente eleva a mentira como instrumento de governo a um novo patamar.

"Fizemos coisas fantásticas ao longo desses dias que dificilmente outro governo estaria fazendo." Sua frase, dita em coletiva à imprensa na saída do hospital Vila Nova Star, em São Paulo, se referia a medidas tomadas por sua gestão no final do ano. Mas também é uma ótima forma de Jair começar uma redação escolar com o título "Minhas Férias".

E que "coisas fantásticas" ele fez? No período entre 17 e 23 de dezembro e 27 de dezembro e 3 de janeiro, andou de jet ski, dançou funk misógino, pescou, visitou o Beto Carreto World com direito a passeio em carro de corrida, aglomerou com simpatizantes na praia, comeu o que não devia e fugiu de sua responsabilidade com as famílias de 26 mortos e quase 100 mil desabrigados e desalojados pelas chuvas no Sul da Bahia.

Nem ele nega isso. "Eu dou minhas fugidas de jet ski. Dou lá uns cavalos de pau no Beto Carrero", afirmou. Vale lembrar que a farra presidencial foi paga com nosso dinheiro.

De acordo com o Datafolha, 15% da população acredita em tudo o que diz. Esse pessoal faz parte do bolsonarismo-raiz, base de apoio incondicional do presidente. É para eles que Jair Messias se dirige quando fala que não estava de férias, mas tocando dias normais de trabalho.

Muitos gostariam de estar fazendo a mesma coisa, andando de jet ski, passendo em lancha, dando cavalinho de pau. Projetam-se no presidente, que se vende como um cidadão comum que chegou ao poder. Mas um cidadão comum não passa quase três décadas como parlamentar, construindo um esquema familiar de desvios de salários de servidores.

O problema é que de um presidente espera-se solução para os problemas do país e não um Ferris Bueller no clássico Curtindo a Vida Adoidado.

Bolsonaro transforma a presidência em um reality a céu aberto, no qual o que importa é ele estar eternamente em evidência para não ser votado para fora do Palácio do Planalto. Enquanto isso, parte do Congresso e seus assessores vão aprovando a desregulamentação do país, afrouxando as regras que garantem um mínimo de qualidade de vida no pós-ditadura.

No fundo, o presidente deve ter sentido uma vontade incontrolável de rir nessa hora. Rir da imprensa, que é obrigada a presenciar tanta bobagem sendo dita numa coletiva de hospital. Rir da população, que é obrigada a tê-lo como presidente porque ele alugou o centrão. Rir dos próprios seguidores, que são tolos o bastante para acreditar no tal caô.

Após terceirizar a crise no Sul da Bahia para seus ministros que devem concorrer a um cargo público em outubro deste ano e delegar outras funções para o pessoal que ficou em Brasília, Jair Bolsonaro foi sim curtir a vida. Descansar não seria problema nenhum se o país não estivesse vivendo múltiplas tragédias.

Ironicamente, suas férias foram interrompidas porque o presidente da República Federativa do Brasil alegadamente não soube mastigar um camarão.

Como tem o intestino mais sensível por consequência da facada que levou em 2018, deveria se alimentar de acordo com as recomendações médicas. Age, contudo, como uma criança. A comparação é descabida porque a maioria das crianças gostaria de se vacinar contra a covid-19, como seus pais e mães, mas não pode porque o presidente e o ministro da Saúde não deixam. Dessa forma, ficou internado com obstrução intestinal até esta quarta - internação que foi, claro, capitalizada politicamente.

Jair Bolsonaro diz que é maldoso afirmar que tirou férias. Por outro lado, ele tem razão. De acordo com o artigo 7º da Constituição Federal, o direito a férias remuneradas pressupõe que a pessoa trabalhou para merecê-lo, o que, convenhamos, não foi o caso. Desconfio que muita gente no Sul da Bahia concorda com isso.