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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro é mais que dez. É 10,06% de uma inflação que massacra os pobres

Reuters
Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

11/01/2022 19h12

O Brasil fechou 2021 com uma inflação de dois dígitos (10,06%), segundo o IBGE. Instado a explicar o que aconteceu, o Banco Central citou a pandemia e a crise hídrica como razões. Com isso, acabou por corresponsabilizar o próprio governo federal pelo calvário dos mais pobres, principais afetados por viverem no limite.

Parte da alta do dólar pode ser creditada a Jair Bolsonaro (PL), que, de um lado, trouxe instabilidade à política (com o auge na Micareta Golpista de 7 de Setembro), criando um ambiente com menos segurança para investidores, e, de outro, seguiu errante na gestão da economia, atendendo aos interesses de aliados no Congresso, preocupando-se em evitar o impeachment e pavimentar a reeleição. Dólar mais alto impacta no preço do gás de cozinha e dos combustíveis e, por conseguinte, na inflação dos alimentos.

Aliás, Bolsonaro sabotou o combate à covid-19, atacando o isolamento social, o uso de máscaras e a compra de vacinas, além de promover remédios inúteis, com o objetivo de empurrar pessoas de volta às ruas para que a economia não atrapalhasse a reeleição. Ironicamente, isso tornou as quarentenas mais ineficazes, estendendo a pandemia e piorando a crise.

Quando a fome apertou (atingindo 19,1 milhões de pessoas, no final de 2020, calculados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), Bolsonaro cancelou o auxílio emergencial em 31 de dezembro e só retomou em abril, com valores mixurucas de R$ 150, R$ 250 e R$ 375 - muito menos que os R$ 600 ou R$ 1200 aprovados pelo Congresso no primeiro semestre de 2020.

Paralelamente, a incompetência do governo na gestão hídrica agravou a crise de energia, explodindo o preço da conta de luz. Pois ao contrário do que afirmam assessores do presidente, a falta de água nas usinas hidrelétricas não decorre de uma grave seca pontual trazida pelo La Niña, mas é resultado da má gestão da administração pública, que ignorou o impacto das mudanças climáticas na produção de energia.

O Brasil não poupou os reservatórios das hidrelétricas para um momento crítico, tal como um motorista que enche o tanque apenas pela metade e encontra um trecho longo de estrada sem postos. E, na reserva, torce para conseguir chegar ao fim da estrada sem uma pane seca. O resultado é que a seca veio e agora vivemos sob o risco de apagões e com o preço da energia consumindo o orçamento de muitas famílias e de negócios.

O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) divulgou, no último dia 7, que o valor da cesta básica aumentou, em 2021, em todas as 17 capitais analisadas mensalmente pelo instituto. As altas mais expressivas foram em Curitiba (16,30%), Natal (15,42%), Recife (13,42%), Florianópolis (12,02%) e Campo Grande (11,26%).

Diante disso, os R$ 400 que Bolsonaro está pagando como Auxílio Brasil a famílias pobres podem não fazer cócegas em seus índices de aprovação e em suas intenções de voto. Em dezembro de 2021, o maior custo da cesta básica foi o de São Paulo (R$ 690,51), depois o de Florianópolis (R$ 689,56) e, em seguida, o de Porto Alegre (R$ 682,90).

Os números negativos da inflação, que atinge principalmente aqueles que assistem ao mês ficar cada vez maior que sua renda, levaram bolsonaristas a tentarem convencer que Jair não tem culpa porque ele foi contra o isolamento social. Acham que, dessa forma, podem "provar" que ele queria impedir inflação, fome e desemprego.

Na verdade, isso apenas demonstra que ele dá pouco valor à vida. Até porque, como já dito, muitas das ações e inações do presidente diante da pandemia ajudaram a piorar a situação.

Esse mimimi ignora que os brasileiros não estavam indo às compras, às aulas, ao trabalho, ao lazer simplesmente porque governadores e prefeitos "maus" impediram, mas porque a população estava ficando doente. Essa situação volta a se repetir agora, com empresas tendo que fechar as portas ou reduzir atividades porque seus funcionários estão se contaminando com a variante ômicron - veja o exemplo dos voos cancelados pelas companhias aéreas.

A cada notícia ruim de seu governo, seus apoiadores vêm a público para defendê-lo e responsabilizar terceiros. Para eles, a culpa da inflação é de Estados e municípios, imprensa e artistas, bilionários comunistas, cavaleiros templários, chineses e seus chips 5G, Leonardo DiCaprio e Greta Thunberg. Todo mundo, menos quem foi eleito para governar e garantir que a inflação fosse a menor possível.

Parabéns, presidente, o senhor é mais que dez. É 10,06%.