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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro comete crimes em série por ser protegido pela PGR e pelo centrão

Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira  - Reprodução
Bolsonaro e o presidente da Câmara, Arthur Lira Imagem: Reprodução
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

28/01/2022 18h45

A Polícia Federal avalia que Jair Bolsonaro cometeu crime no vazamento de dados sigilosos. Mas o seu indiciamento, bem como o do deputado Filipe Barros (PSL-PR), que participou da divulgação, dependeria de autorização do Supremo Tribunal Federal. Ficamos sabendo disso porque o sigilo do inquérito foi retirado pelo ministro Alexandre de Moraes após o presidente faltar ao depoimento na PF nesta sexta (28).

Jair é investigado por divulgar em suas redes, em agosto de 2021, documentos sobre uma tentativa de invasão aos sistemas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como parte de sua campanha contra a urna eletrônica. Detalhe: apenas tentativa, pois não houve invasão com alteração de dados protegidos.

Há juristas e advogados que afirmam que, como investigado no inquérito, Jair teria o direito a não comparecer a esse depoimento, pois isso seria o equivalente a ficar em silêncio. O processo seguiria adiante, portanto, com ele abrindo mão da autodefesa.

Mas como há uma ordem de Moraes para que vá depor (após o presidente ter se omitido em marcar a data e local de seu depoimento por dois meses), discute-se o que acontecerá com ele por desrespeitar a decisão. Nesse caso, ele poderia estar cometendo um crime de responsabilidade - para além do crime sobre o qual é investigado.

A questão é um tanto quanto bizantina, pois Bolsonaro comete crimes com a mesma frequência com que despeja leite condensado no pão francês. Os mais de 140 pedidos de impeachment que servem, hoje, de almofada para a cadeira do presidente da Câmara, Arthur Lira (PL-AL), são prova disso.

Se o procurador-geral da República, Augusto Aras, que vem agindo como fiel escudeiro de Jair, deixar de apresentar denúncia ao STF por um crime do presidente (para surpresa de zero pessoa), o Supremo poderia tocar uma ação por conta própria? Há quem defenda que sim.

Porém, a abertura de um processo criminal contra o presidente da República no STF dependeria, mesmo assim, do aval da Câmara dos Deputados. E é mais fácil o famoso camelo passar pelo não menos famoso buraco da tal agulha do que os sócios de Jair Bolsonaro se juntarem à oposição e entregarem 342 votos para afastá-lo e torna-lo réu. Ainda mais depois que ele abriu os cofres públicos para distribuir milhões em emendas, via orçamento secreto, para os aliados.

Se você está reclamando de que há ceticismo demais escorrendo deste texto é porque raramente acompanha esta coluna.

Até agora o saldo de tudo isso é um Jair brincando com as instituições para provocar orgasmos em seus seguidores mais radicais. A imagem que ele quer passar é de alguém que está peitando Alexandre de Moraes em nome da liberdade e da democracia. Qualquer pessoa que não está vivendo sozinha em uma caverna tomando sombras como realidade sabe que isso é cascata da grossa. Mas é o suficiente para alegrar o bolsonarismo-raiz.

Polarizando com o ministro, que também dobrou a aposta, ele entrega ração para uma parte de seu rebanho, que representa uns 15% do eleitorado. É a maioria dos 23% de votos espontâneos (segundo a pesquisa Ipespe, divulgada nesta quinta) - que ele ostenta. Um patamar que, se mantido, o levará ao segundo turno - caso segundo turno houver.

Pode ser até que Jair preste seu depoimento e tudo isso fique para trás ou venha a turma do deixa disso. Mas, até lá, tempo precioso do país terá sido gasto em bobagem. O presidente está 100% em campanha, não peçam para ele se dedicar às questões nacionais. O problema é que, em meio a essa estratégia eleitoral, ele vai atacando a credibilidade de instituições. Independentemente se ganhar ou perder em outubro, seu legado será uma democracia mais frágil e uma República que levará anos para ser reconstruída.

De qualquer forma, Bolsonaro será julgado pelas urnas antes do que pela Justiça. Resta saber o que acontecerá com todos esses casos no dia seguinte às eleições, ele ganhando ou perdendo.