PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro vai, aos poucos, admitindo que corrupção faz parte de seu governo

Reuters
Imagem: Reuters
Conteúdo exclusivo para assinantes
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/05/2022 20h15

"O nosso governo, até o momento, não tem denúncias consistentes sobre corrupção." A declaração de Jair Bolsonaro, dada, nesta quinta (5), em um ato com cara de comício eleitoral, em Itatuba (PB), mostra que a sua gestão está ficando sem tapete para varrer tanta denúncia para baixo.

Mas não é a primeira vez que ele faz isso. Menos de uma semana após sua filiação ao partido de Valdemar da Costa Neto, o presidente disse: "Não vou dizer que no meu governo não tem corrupção, porque a gente não sabe o que acontece muitas vezes", afirmou a apoiadores em frente ao Palácio do Alvorada no dia 6 de dezembro do ano passado.

A diferença é que, naquele momento, ele lavava as mãos. Agora, admite as denúncias, mas chama de inconsistentes. O que, convenhamos, é questão de opinião.

A sua última grande bravata havia sido proferida em 22 de março deste ano, quando disse que "estamos há três anos e três meses sem corrupção no governo federal". De lá para cá, vieram más notícias do Ministério da Educação, com denúncias de sobrepreço milionário na compra de ônibus escolares rurais e de kits de robótica, além daquelas sobre os pastores que cobravam pedágio em barras de ouro e bíblias para garantir acesso de prefeitos ao governo.

E outras do Ministério da Defesa, sobre concorrências mal explicadas para a compra de Viagra com valores acima dos de mercado e de próteses penianas.

Em outro momento em que se sentia invencível, Bolsonaro afirmou, em 7 de outubro de 2020, que havia acabado com a operação Lava Jato porque, segundo ele, não havia mais corrupção no governo. "É um orgulho, uma satisfação que eu tenho dizer a essa imprensa maravilhosa nossa que eu não quero acabar com a Lava Jato. Eu acabei com a Lava Jato porque não tem mais corrupção no governo. Eu sei que isso não é virtude, é obrigação."

Não foi ele quem acabou com a operação, na verdade foram os próprios membros da força tarefa que se implodiram ao passarem por cima da lei para atingir seus objetivos. Mas há aliados do presidente que tiveram papel fundamental na derrocada da operação, como o procurador-geral da República, Augusto Aras. É música para uma parte de sua base de parlamentares no centrão que a Lava Jato foi para o vinagre, considerando que não eram poucos os investigados.

Em seu discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 21 de setembro de 2021, Jair falou para o mundo: "Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões. O Brasil mudou, e muito, depois que assumimos o governo em janeiro de 2019. Estamos há dois anos e oito meses sem qualquer caso concreto de corrupção".

Naquele momento, a CPI da Covid desnudava ao país que, nos intestinos do incorruptível governo Bolsonaro, ocorreram negociações de cambalachos e maracutais para a venda superfaturada de vacinas e outros insumos. Isso envolveu pedidos de propina bilionários, com um articulações que lembravam, e muito, o microcosmo da cidade de Sucupira, de "O Bem Amado", novela de Dias Gomes, envolvendo políticos, coronéis, policiais, religiosos e servidores públicos.

Há uma parcela de 17% da população que acredita em absolutamente tudo o que Jair diz, segundo o Datafolha. Esses fanáticos creem que há um complô contra seu "mito" e que Fabrício Queiroz, seu amigo rachador, é um trabalhador honesto e injustiçado. Esse grupo até põe fé quando Bolsonaro diz que acabou com a corrupção no Brasil e diga que garantiu transparência total, mesmo que, logo depois, o presidente tenha ameaçado meter a porrada na boca de um jornalista que perguntou a razão de Queiroz ter depositado R$ 89 mil na conta da primeira-dama, Michelle.

E há uma parcela dos bolsonaristas que sabe que Messias é mito, mas não é santo - e não se importa com isso. Para eles, não há problema algum se o bolsonarismo no poder tirar o seu cascalho. Pelo contrário, acham isso justo uma vez que eles estariam ajudando a livrar o Brasil do fantasma do comunismo.

Agora, há também um eleitorado que até votaria em um presidente que diz não saber que havia corrupção em seu governo - lembrando que isso já colou antes. Mas que se sente pessoalmente ofendido quando o ele nega o que está todo mundo vendo na cara dura.

Bolsonaro, desta forma, se prepara para o esporte em que é campeão: o arremesso de responsabilidade à distância. Se continuar treinando assim, em algum momento até o final de seu governo, dirá que a corrupção existiu mesmo, mas que ele foi a principal vítima.