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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guedes copia Bolsonaro, ignora realidade e diz que pior da inflação passou

Reuters
Imagem: Reuters
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

19/05/2022 18h09

Se o ministro da Economia Paulo Guedes vivesse com um salário mínimo de R$ 1.212 mensais, ele nunca teria dito que o país já saiu do "inferno" da inflação, como afirmou nesta quinta (19).

Pois tomate, melão, cenoura, repolho, leite, óleo de soja, batata, brócolis, couve-flor, manteiga, pão francês, farinha de mandioca, arroz, café em pó e feijão ficaram bem mais caros no mês passado, segundo o IBGE ou o Dieese - o que ajudou a reduzir a qualidade de vida dos brasileiros mais pobres.

Mesmo quem ganha benefícios sociais para ajudar as contas a fechar no final do mês também têm vivido um inferno com a redução do poder de compra trazida pela inflação. Sim, aqueles R$ 400 do Auxílio Brasil já não valem a mesma coisa que valiam no momento em que foram anunciados pelo governo.

A inflação para os consumidores do mês passado foi a mais alta para abril desde 1996. E apesar do IPCA, nos últimos 12 meses, ter acumulado 12,13%, a alta dos preços é mais sentida entre os mais pobres, que dedicam boa parte do orçamento ao essencial, ou seja, sobreviver. Por exemplo, de acordo com o Dieese, a cesta básica de alimentos em São Paulo aumentou 27% no mesmo período.

Para se justificar, Guedes usou a desculpa que vem sendo dada pelo bolsonarismo: está assim no mundo todo.

"Está faltando manteiga na Holanda, tem gente brigando na fila da gasolina no interior da Inglaterra, que teve a maior inflação dos últimos 40 anos e vai ter dois dígitos. Eles estão indo para o inferno. Nós já saímos do inferno, conhecemos o caminho e sabemos como se sai rápido do fundo do poço", disse.

Poderíamos dizer essa comparação é absurda porque em ambos os países, mesmo com a inflação e escassez de alguns produtos (por uma série de motivos), a classe trabalhadora é mais protegida do que aqui.

Mas basta dizer que não se têm notícia de que cidadãos de Amsterdã ou Roterdã tenham corrido atrás de caminhões de lixo para catar pelanca de carne para alimentar seus filhos, nem que moradores de Manchester ou Liverpool estejam fazendo fila para disputar carcaças de animais que antes eram dadas aos cachorros. Mas isso aconteceu há pouco tempo aqui, em Fortaleza e no Rio de Janeiro.

E antes que alguém diga que a vida vai melhorar daqui em diante, o próprio Ministério da Economia, algumas horas depois da declaração de Guedes, revisou para cima a sua projeção para a inflação oficial, subindo o IPCA de 6,55% para 7,9% em 2022. Outro índice, o INPC, vai até mais longe: a previsão foi de 6,7% para 8,1%.

Ministro prova que vive em uma outra versão do Brasil no multiverso

O ministro é craque em dar declarações que dão a impressão que ele vive em uma realidade paralela, um outro país.

Em 25 de agosto do ano passado, ele perguntou "qual o problema agora que a energia vai ficar um pouco mais cara porque choveu menos?", ignorando que muitos têm que escolher entre comer ou ficar no escuro.

Em 27 de abril de 2021, reclamou, em reunião do Conselho de Saúde Suplementar, que o aumento da expectativa de vida dos brasileiros dificultava que o governo fechasse as contas. "Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130. Não há capacidade de investimento para que o estado consiga acompanhar."

Em declaração à revista Veja, publicada em 13 de março de 2020, disse que bastariam R$ 5 bilhões para acabar com o coronavírus. "Com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus." De acordo com o site de transparência do Tesouro Nacional, o governo federal gastou R$ 524 bilhões, somente em 2020.

Em 12 de fevereiro de 2020, durante um evento, ele reclamou que trabalhadoras empregadas domésticas estavam indo à Disney. "O câmbio não está nervoso, [o câmbio] mudou. Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada."

Em novembro de 2019, em entrevista à Folha de S.Paulo, criticou pobres por não pouparem: "Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos, os pobres consomem tudo".

Sim, em meio a um Brasil em chamas, Paulo Guedes diz que já saímos do 'inferno' da inflação.