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Leonardo Sakamoto

Em busca de votos, Bolsonaro bajula Musk, que só veio atrás de dinheiro

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

20/05/2022 18h15

Claro que a visita do homem mais rico do mundo ao Brasil em um encontro com o nosso presidente golpista a fim de falar do uso de sua malha de satélites privados na Amazônia, às vésperas da eleição, pode despertar os instintos mais conspiratórios.

Mas é exatamente isso que Jair Bolsonaro quer de cada um de nós: que acreditemos que o multibilionário, criador da Tesla e da SpaceX e, talvez-quem-sabe, novo dono do Twitter, deslocou-se milhares de quilômetros para apoiá-lo em sua luta contra o mal. Ahã, Cláudia, senta lá.

Elon Musk veio fazer negócios por aqui. Ou seja, ganhar cascalho vendendo um caríssimo sistema de internet a partir de sua rede particular de microssatélites para conectar escolas e para o monitoramento da região amazônica.

A Anatel já autorizou a Starlink a operar seus satélites de órbita baixa no Brasil. A empresa também quer encurtar o debate público sobre a segurança dos dados produzidos, o que, numa democracia, deveria levar um bom tempo.

Bolsonaro, por outro lado, quer fazer de tudo para parecer que Musk rebolou para essas bandas só para passar a ideia que Jair é o cara. Até chamou o megaempresário de "mito da liberdade" numa tentativa mambembe de colar sua imagem à dele junto a seus seguidores.

Apelou novamente para aquela cascata de que luta pela liberdade de expressão no Brasil - quando é público e notório que ele incita seus aliados e seguidores contra qualquer pessoa que questione suas palavras e ações. E fez uma média com Musk, torcendo que consolide a compra do Twitter. O empresário tem uma visão de liberdade mais tolerante com ataques aos tolerantes praticada por Donald Trump e Jair Bolsonaro.

De quebra, o brasileiro - criticado ao redor do mundo por fomentar o desmatamento e as queimadas na Amazônia - afirmou que quer contar com a ajuda dos satélites do empresário para esclarecer "mentiras". Ou seja, criar uma nova narrativa em que seus crimes ambientais não apareçam. Considerando que eles não são os únicos satélites a monitorar a região, é mais uma bobagem para nos fazer passar vergonha lá fora.

O presidente conseguiu a foto, o vídeo e a exposição pública que queria, tirando uma casquinha de Musk. E, ainda por cima, tendo como claque alguns grandes empresários que torcem por sua vitória na eleição de outubro.

Musk provavelmente conseguiu avançar nos negócios da Starlink, como queria. E ainda usou a repercussão pitoresca de se encontrar com um pária global para afastar-se um pouco do último escândalo: uma acusação de assédio sexual contra uma comissária de bordo.

Enfim, tenhamos cuidado para não dar a Jair o tamanho que ele não tem.