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Bolsonarismo fez 'ataque preventivo' ao Datafolha antes mesmo da divulgação

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Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

27/05/2022 07h48

Na expectativa de um resultado negativo na pesquisa Datafolha, as redes bolsonaristas atuaram para deslegitimar o instituto nas horas que antecederam a divulgação do levantamento, que ocorreu pouco depois das 18h desta quinta (26). Essa antecipação da batalha de desinformação contra a credibilidade dos dados, que normalmente acontece após uma divulgação dos resultados, indica que a campanha de Jair Bolsonaro (PL) estava consciente de que a atual situação do presidente não é confortável.

Com 48% das intenções de voto, Lula (PT) poderia vencer no primeiro turno, caso as eleições fossem hoje. Ele tem oito pontos acima da somatória de seus concorrentes, de acordo com o Datafolha. Bolsonaro, que conta com 27% também tem 54% de rejeição, frente a 33% do petista.

O segredo não é o sorriso do ex-presidente, mas uma reprovação alta do governo (48%) muito por conta de uma inflação que corrói o poder de compra principalmente dos mais pobres. Tanto que, entre os entrevistados com renda familiar de até dois salários, 56% votam Lula e 20% preferem Bolsonaro - que poderia ter pontuação ainda pior nessa faixa se não houvesse o Auxílio Brasil.

A enquete criada pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria (que perguntou no Twitter após a divulgação dos resultados quem tem mais credibilidade, o Datafolha, Papai Noel, duendes ou Pinóquio), e as críticas de aliados políticos do presidente são a parte mais cômica e visível, mas não a mais caudalosa. Detalhe: às 6:30 desta sexta (27), o Datafolha vencia com 69% dos 176 mil votos.

Postagens criticando o instituto foram divulgadas por fãs do presidente e por contas provavelmente criadas para a guerra digital, com zero ou poucos seguidores e muitas publicações e compartilhamentos já durante a tarde.

Mensagens, compartilhadas em grupos bolsonaristas no WhatsApp, tentavam convencer que institutos de pesquisa são comprados pelo PT. Outras adotavam técnicas conhecidas, como usar imagens de Bolsonaro em motociatas, carreatas e comícios, afirmando que essas aglomerações mostram que sua popularidade é alta e, portanto, as pesquisas, mentirosas.

O bolsonarismo tem insistido em vender a narrativa sem base nos fatos de que o presidente pode andar na rua e o petista, não, o que seria a evidência de que a rejeição do segundo é maior.

Nesta quinta, ressuscitaram como "prova" da baixa popularidade de Lula imagens do ato do Primeiro de Maio em São Paulo, do qual Lula participou e que teve um público reduzido - tão reduzido, aliás, quanto os atos organizados pelos próprios bolsonaristas no mesmo dia.

Outras postagens traziam prints de enquetes sem nenhuma base científica, que respondidas pelos seguidores do presidente medem, na verdade, a sua popularidade dentro da própria bolha bolsonarista. No topo dos memes, avisavam que aquilo era o "DataPovo".

Muitos acreditam nesse tipo de material porque ele confirma o seu próprio ponto de vista. Esse fenômeno de viés de confirmação é conhecido e ocorre porque temos propensão em acreditar em informações com as quais concordamos - mesmo que, ao final do dia, esses fatos não estejam conectados com a realidade.

Houve até postagem que uniu ataques ao Datafolha e à chef Paola Carosella. Bolsonaristas haviam organizado uma fracassada tentativa de boicote ao seu restaurante em São Paulo. Nesta quinta, usaram imagens de uma longa fila para dizer que, segundo o instituto, essa era a espera para o restaurante de Carosella.

Ironicamente, a fotografia era de uma fila de desempregados no Vale do Anhangabaú procurando serviço. O desemprego, no governo Jair Bolsonaro, atinge quase 12 milhões de brasileiros, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE, e é um dos motivos para a sua intenção de voto continua derrapando.

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