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OPINIÃO

'Pastor do ouro' operava na sombra por achar que cargo oficial pagava pouco

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Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

28/06/2022 05h11

O Brasil é o país da piada pronta, já dizia o humorista José Simão. O pastor Arilton Moura - aquele acusado de cobrar propina em ouro para dar acesso privilegiado ao Ministério da Educação - recebeu uma oferta de um cargo oficial de assessor pelo então ministro Milton Ribeiro, mas não aceitou. Achou que pagava pouco.

A informação está em relatório da Controladoria-Geral da União usado na investigação da Polícia Federal que se debruça sobre o "gabinete paralelo" do ministério. O da Educação, neste caso, porque o gabinete paralelo do Ministério da Saúde já foi investigado pela CPI da Covid.

(É tanta coisa na surdina neste governo que, se a gente não tomar cuidado, mistura religiosa propina, com farra da cloroquina, esquema da vacina, sacanagem na gasolina, apoio à chacina e ex-ministro vaselina.)

Segundo o documento, Arilton foi entrevistado para uma vaga de assessor da cúpula do órgão, mas "mostrou-se descontente com a remuneração do cargo".

E foi além. Ele "teria externado sua insatisfação, inclusive, na frente de outros servidores da pasta, em reuniões do MEC que contaram com a presença do ministro Milton Ribeiro e requereu que lhe fosse disponibilizado outro com melhor vencimento", segundo a CGU.

A nomeação acabou não rolando, mas quem ocupou o cargo foi Luciano Musse, que chegou a ser preso junto com ele e o pastor Gilmar Santos como parte da Operação Acesso Pago - que investiga corrupção e tráfico de influência no MEC.

Segundo o Ministério Público Federal, Musse era próximo dos dois e recebeu R$ 20 mil em propina a pedido de Moura para intermediar um encontro de um empresário com Milton Ribeiro.

Além de terem livre acesso ao Ministério da Educação, os dois pastores eram figurinhas fáceis no Palácio do Planalto. Tanto que Gilmar Santos era querido pela família Bolsonaro antes mesmo de Milton Ribeiro assumir a pasta.

Tão querido que o próprio ministro disse, em famosa gravação, que o presidente fez um "pedido especial" para que os amigos de Gilmar tivessem prioridade no MEC.

Não à toa, portanto, que interceptações telefônicas de Ribeiro indicam que Bolsonaro usou informação privilegiada da Polícia Federal para avisá-lo de que a instituição faria uma operação contra ele - o daria tempo para que provas fossem destruídas.

Era a autopreservação presidencial diante de evidências de uma organização criminosa envolvendo o MEC, pastores evangélicos que cobravam propina em ouro e nomes do centrão com acesso a bilhões de reais de recursos.

Para além dos trabalhos da Polícia Federal, uma CPI do MEC precisa ser instalada para investigar qual a verdadeira relação de Bolsonaro com os pastores que gerenciavam propina para acesso a MEC.

Era um consórcio para produção de cascalho com direito à rachadinha? Um toma-lá-dá-cá para garantir apoio de fiéis à reeleição? Ou a prova que a gestão de Jair transformou o ministério na Casa do Pai Arilton?

O fato de um pastor acusado de cobrar propina em ouro operar informalmente no MEC e achar que trabalhar como lobista com cargo oficial pagava pouco é uma boa oportunidade para refletir sobre os motivos que levaram Bolsonaro a ficar tão preocupado com o que a Polícia Federal encontraria.

"Ninguém pode servir a dois senhores, pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro", como diz o famoso Evangelho de Mateus, capítulo 6, versículo 24.

Mas, neste governo, dá-se um jeito. É só criar uma cortina de fumaça que Deus nem vai perceber.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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