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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Celebrar Cláudio Hummes é ato de resistência no país da desigualdade social

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

04/07/2022 18h22

O cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo, fez de sua vida uma opção pelos mais pobres. Apesar desse caminho estar claro nas palavras sagradas do Novo Testamento, não são muitos os líderes religiosos com coragem de trilhá-lo. Ou com vontade.

Em um país com uma diabólica concentração de renda e uma infernal desigualdade social, como o nosso, muitos optam pelo lugar quentinho da conformidade, lembrando ao rebanho que o sofrimento nesta vida vale créditos para a próxima.

Durante as greves de metalúrgicos do ABC, na década de 1970, o então bispo de Santo André apoiou o movimento. Subiu em caminhões para falar aos trabalhadores nas portas das fábricas, organizou arrecadação de alimentos às famílias dos grevistas, abrigou reuniões de dirigentes sindicais quando a ditadura as proibiu, abriu as portas da igreja para proteger os operários e suas famílias.

E, ao peitar a ditadura militar, alinhou-se a figuras como Paulo Evaristo Arns e Pedro Casaldáliga, que também tiveram coragem na hora mais sombria.

Hummes, que presidiu a Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB, ajudou a criar a Rede Eclesial Pan-Amazônica e foi relator geral do Sínodo Pan-Amazônico, defendeu o meio ambiente e suas populações.

"Aos povos indígenas devem ser restituídos e garantidos o direito de serem protagonistas de sua história, sujeitos e não objetos do espírito e da ação do colonialismo de ninguém."

Cláudio Hummes se retirou nesta segunda (4). O que me fez lembrar de outro bispo que também descansou, em dezembro passado. Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, em 1984, por sua luta contra o apartheid e o racismo na África do Sul, uma vez disse que "se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor".

Em tempos em que empresários amigos do governo divulgam orgulhosos a sua ignorância, defendendo que a Suprema Corte seja neutra diante da opressão, relembrar a vida de Cláudio Hummes é um ato de resistência.