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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Francia Márquez merece elogios, mas Marina Silva merece Fake News

Marina Silva em debate nas eleições de 2018 - Reprodução/Facebook
Marina Silva em debate nas eleições de 2018 Imagem: Reprodução/Facebook
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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

21/06/2022 04h00

"É sobre isso", dizem emocionados os feministos e feministas lulistas diante da chegada de Francia Márquez à vice-presidência da República na Colômbia.

Fazer nas redes sociais um posicionamento favorável à eleição de uma mulher negra e de esquerda é algo muito bom especialmente para integrantes da elite urbana. É a garantia de ser visto como pessoa virtuosa e, pelo menos por hoje, escapar do cancelamento pelos próprios pares. Já inclusão de verdade pode não ser tão cômoda.

Francia Márquez tem o pacote completo da mulher que luta sozinha contra preconceitos e barreiras sociais. Ocupa o lugar que facilmente seria de alguém privilegiado. Militantes gourmet pregam que "precisamos aprender com a Colômbia" e embarcam na teoria da onda vermelha que também tomou os grupos bolsonaristas.

Trata-se de uma explicação sobre a virada de chave de toda a América Latina, uma série de sinais sobre a certeza da eleição de Lula. Tem a mesma precisão de uma cartomante - às vezes até menos - mas se trata como análise política.

Como outros países estão indo para a esquerda e para a aceitação da alternância de poder, nosso caminho natural é trocar Bolsonaro por Lula.

Para os bolsonaristas, isso quer dizer que está sendo instaurado o comunismo sem necessidade de revolução comunista. Para os lulistas, quer dizer que finalmente levaremos a sério mulheres negras em chapas presidenciais. Não, espera?

A biografia de Francia Márquez é muito parecida com a biografia de Marina Silva. Ambas vieram da pobreza e do serviço braçal, estudaram lutando contra todas as adversidades, entraram para a política pela porta da defesa ambiental.

Comemorar a eleição de uma mulher negra à vice-presidência de um país latinoamericano é saudável. Trágico é fazer isso mas boicotar, ridicularizar e chafurdar na misoginia quando a candidata é do seu próprio país.

Muita gente que hoje finge comemorar algo com que não se importa está preocupada em parecer boa diante do grupo social. O problema é confundir este comportamento, que é superficial mas legítimo, com política ou militância por inclusão.

Quando tivemos uma mulher negra candidata à presidência, foi deflagrada a primeira campanha de Fake News brasileira da era digital.

Marina Silva só aparece de 4 em 4 anos, acabaria com o Bolsa Família, favoreceria os bancos tirando dinheiro dos pobres, acabaria até com o Círio de Nazaré porque é crente. Pense num absurdo qualquer. Espalharam.

Na campanha seguinte, luloafetivos diziam que ela era "linha auxiliar do fascismo" e houve até delirante dizendo que votar na candidata era igual votar em Jair Bolsonaro. Mesmo assim, apoiou Haddad no segundo turno.

No discurso após a derrota, não mereceu nem um agradecimento. Antes também não tinha merecido nem desagravo nem desculpas. Haddad e Lula não foram os autores das Fake News para assassinar a reputação da candidata à presidência, mas também não fizeram nada para evitar.

Lula poderia ter se aproximado de Marina Silva agora. Não fez e nem pediu desculpas porque não quis e sabe que não precisa. Optou por um comportamento clássico de macho abusador. No evento em que a Rede apoiou sua candidatura, fez questão de espezinhar dizendo que ela tem mágoa e ele não sabe a razão.

A militância petista não reagiu. Aliás, nem Randolfe Rodrigues e Joênia Wapichana defenderam a dignidade de Marina Silva ou a reposição da verdade. Ficaram ali apalermados vendo uma mulher negra ser difamada de novo.

As mesmas pessoas que escolhem quem pode ser pisoteado e despido de sua dignidade são aquelas que agora falam em inclusão e luta das mulheres negras. Os mesmos perfis que colocam relatos comoventes sobre a vice-presidente colombiana espalham que Marina tem raiva de Lula porque ele escolheu Dilma no lugar dela.

Não querem inclusão de ninguém, querem manter o posto de "gatekeepers" da inclusão alheia enquanto bajulam ídolo político populista e cometem perversidades alegando indignação justa. É um ciclo perverso e cansativo.