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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não é homofobia se for a favor do Lula e contra o Glenn Greenwald

Deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) - Diego Bresani/UOL
Deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) Imagem: Diego Bresani/UOL
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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

24/06/2022 04h00

Desde quando David Miranda saiu do PSOL e entrou no PDT de Ciro Gomes, os perfis mais radicais que defendem o lulismo iniciaram ataques sistemáticos contra ele e a família na internet.

São ataques pessoais na maioria de perfis que utilizam pseudônimos ou são anônimos. Assim como ocorria no bolsonarismo em 2018, muitas pessoas curtem, compartilham e aplaudem.

Impossível saber se é orquestrado. Podem ser cidadãos simpatizantes da candidatura. Também podem ser pessoas que só gostam de xingar mesmo e precisam de uma justificativa moral e um grupo de apoio.

No caso do bolsonarismo houve uma união das duas coisas. Cidadãos que resolveram fazer ataques contra adversários políticos de Jair Bolsonaro e tiveram sucesso nas redes acabaram sendo acusados de formar agora o "Gabinete do Ódio".

Não é possível dizer que o PT tenha um igual, seria falsa simetria. O que existe é o "Gabinete do Amor Exigente".

Grupos radicais são a minoria do eleitorado e até mesmo da militância, mas possuem um poder enorme de silenciamento de adversários e críticos.

No início do mês de junho, um perfil anônimo lulista escreveu o seguinte sobre David Miranda: "Esse rapaz é um perigo. Burro, incapacitado, medíocre, mediano... Poderia passar a noite adjetivando esse moço que só ganha atenção por brincar com a cloaca do Seu Ladir do Intercept."

A postagem foi curtida, compartilhada e comentada por milhares de pessoas, inclusive jornalistas jovens. Muitos acharam engraçadíssimo o apelido e minimizaram o conteúdo.

Também há pessoas indignadas, mas em menor número. A presença delas faz com que surjam grupos justificando o ato como "brincadeira" ou "piada". Alguns dizem que até é bom para os alvos porque ganham popularidade.

A maioria das pessoas não vai saber como reagir diante da duplicidade entre violência e humor. O objetivo dos radicais é sempre chegar a um lugar de poder ou de destaque. Como combater a ação sem fazer isso? Difícil.

Se você cobrar pessoas que fingem não ver o ataque de quem defende o mesmo político, elas vão dizer que não têm nada com isso, não foram elas que postaram. É verdade.

Mas podem ainda utilizar a interpelação para condenar - só que de forma polida - os alvos do ataque e dizer que não têm nada com isso, sem jamais condenar com veemência o ataque em si ou seus autores.

Funciona bem nas redes. Muitos dos bolsonaristas "moderados" surfaram nessas técnicas, que eram objetivamente ensinadas por Olavo de Carvalho para ganhar espaço e poder.

Agindo com moderação e indignação, mas sendo sistematicamente permissivo com radicais, é possível calar críticos e esmagar oponentes sem sujar as mãos.

Glenn Greenwald contou o incidente em uma coluna na Folha de São Paulo. Foi tão ridicularizado que o apelido passou o dia nos Trending Topics do Twitter.

Centenas de perfis passaram a adotar o nome "Ladir do Intercept" depois da publicação. Um deles chegou a ser host de uma sala de bate-papo no Twitter que conseguiu reunir pessoas importantes e sérias, ligadas à política e ao jornalismo. Em determinado momento, o título da sala era o apelido.

Os participantes garantem não ter imaginado que se tratava de algo relacionado a Glenn Greenwald e muito menos preconceituoso.

Suponha que um direitista moderado participasse de um evento intitulado com um apelido que o "Gabinete do Ódio" deu a Jean Wyllys e não imaginasse essa conexão. Provavelmente receberia o mesmo voto de confiança.

O fato é que apenas moderados estão sujeitos a cancelamentos e quem ganha com isso são os radicais. Moderados agora vivem pisando em ovos e precisam escolher suas brigas. Radicais elegem alvos contra os quais não há limites, direito de se explicar, possibilidade de perdão ou solução diferente da aniquilação.