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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É um erro confiar em redes sociais para combater desinformação

Fake News - Reprodução
Fake News Imagem: Reprodução
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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

04/07/2022 04h00

"Se os porcos pudessem votar, o homem com o balde de lavagem sempre seria eleito, não importa quantos porcos já houvesse abatido", diz o escritor de ficção científica Orson Scott Card.

Felizmente, os porcos não votam. Infelizmente, o raciocínio descreve o nosso imediatismo em confiar cegamente nos que prometem soluções para as nossas urgências.

Sistematicamente, autoridades públicas e comunicadores confiam nas declarações das redes sociais sobre o próprio empenho no combate à desinformação. O fenômeno só aumenta, mas a confiança continua.

O Congresso Nacional tenta aprovar um projeto de lei nesse sentido e há alguns anos chama especialistas que faz questão de não ouvir. Por isso, o PL 2630 continua erguido sobre dois pilares de falhas conceituais.

O primeiro é considerar a internet como fenômeno nacional, quando ela é um fenômeno mundial, como já estipula o Marco Civil da Internet brasileira, modelo internacional de legislação. O segundo é tratar desinformação como disputa pela verdade e com soluções exclusivamente no universo digital.

Os parlamentares já ouviram isso há 2 anos do "pai" da internet brasileira, Demi Getschko, diretor do NIC-br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto Br), integrante de notório saber do CGI-br (Comitê Gestor da Internet do Brasil) e primeiro brasileiro a entrar para o Hall da Fama mundial da internet.

"A internet possibilitou uma visão da sociedade, é um espelho da sociedade. Vamos com mais clareza ações humanas que antes talvez fossem menos visíveis. Se olha para esse espelho e não gosta, quebrar o espelho não resolve. Qualquer nova abordagem legislativa na área deve verificar o que está quebrado e o que é passível de consertar. Digo isso porque em geral as ferramentas de conserto que temos são anteriores ao mundo digital e não levam em conta algumas características da internet", disse Demi Getschko em vão.

Esta semana, os parlamentares recebem outra expert, Frances Haugen, a delatora dos Facebook Papers. Ela tem rodado o mundo fazendo o papel de gabinete do óbvio, mostrando que o combate à desinformação afeta os lucros das plataformas.

Em entrevista exclusiva a Patricia Campos Mello na Folha de S. Paulo, explicou que os investimentos priorizam países que podem regulamentar a questão, não os que têm problemas mais graves.

Para nós, "regulamentar" quer dizer decidir o que pode ou não ser postado e o que deve ou não ser derrubado. É um raciocínio tão rudimentar que deixa evidente não haver o menor risco de regulamentação eficiente tão cedo.

Vira e mexe, vemos listas de quantos produtores de conteúdo ganharam uma bolada com desinformação. Ninguém nem pergunta quanto as redes ganharam e quanto desse conteúdo foi deliberadamente impulsionado porque engaja mais.

Plataformas ganham mais que os produtores, mas basta derrubar um canal ou conteúdo depois de lucrar bastante com ele para que saiam ilesas e até aplaudidas.

Não há razão para mudar e perder dinheiro. Frances Haugen diz que a escolha é entre reduzir 95% de desinformação e perder 5% de lucros. Insistimos em deixar a decisão nas mãos de quem está lucrando.