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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Paulo Cruz x Zambelli: método socrático disciplina o bolsonarismo

Carla Zambelli chora em live - Reprodução/YouTube
Carla Zambelli chora em live Imagem: Reprodução/YouTube
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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

06/07/2022 04h00

"Eu vou mijar, fica falando sozinho". É com esta frase icônica que a deputada federal Carla Zambelli encerrou sua participação no Flow Podcast após ficar irritadíssima com o co-host da atração.

A parlamentar levantou e foi embora depois de horas de entrevista. Estourou e falou palavrões, algo que não condiz com a imagem conservadora e católica tradicional que agora adota. Tentou se explicar em uma nota oficial ao UOL.

Não disputo o direito ao palavrão, mas chamar Paulo Cruz de burro é faltar com a verdade. O professor de filosofia e mestre em Ciências da Religião, de quem tenho a honra de ser amiga, chega a ser irritante justamente pelo oposto.

No debate político altamente tóxico, polarizado, estridente e moralista, ele tem uma vantagem enorme no currículo. É professor de filosofia de adolescentes. Quem dá aulas para uma sala cheia de adolescentes está a um passo da canonização automática.

É um erro acreditar que agir exatamente igual aos bolsonaristas, investindo em intolerância e populismo, irá combater o bolsonarismo. Apostar no método implica partir da premissa errada de que todos os bolsonaristas defendem as causas que vocalizam.

A deputada Carla Zambelli é um exemplo entre os inúmeros casos nacionais e internacionais de volatilidade ideológica sem perder a estridência jamais. Foi, junto com Sara Winter, uma das ativistas do Femen, o polêmico grupo que se dizia feminista.

Era o braço de um grupo feminista ucraniano autointitulado "sextremista". Ficou conhecidíssimo na imprensa pelos protestos com os seios de fora. Carla Zambelli protestava pelo parto em casa, exibindo o ventre de grávida.

Houve uma série de desentendimentos com o Femen original, com o movimento feminista e, no final das contas, tanto Winter quanto Zambelli desembarcaram no Bolsonarismo. Só a última permanece.

As ideologias são o avesso uma da outra, mas os métodos de protesto e enfrentamento são semelhantes na tentativa de desestabilização emocional dos adversários. É algo quase impossível de falhar.

Muitas pessoas argumentam que não se pode exigir delas equilíbrio quando são abordadas de forma violenta por extremistas políticos e isso é compreensível. Ao reagir da forma como pensam que os extremistas merecem, no entanto, não pensam no resultado que a sociedade merece.

Quando Carla Zambelli desestabiliza emocionalmente seus adversários em um debate, faz vídeos virais para as redes sociais. É quase impossível sair perdendo, controla a cena. Não foi o caso agora.

Na era da polarização tóxica, geralmente o tema discutido e a verdade objetiva são meros acessórios. Interessa quem é a pessoa e a qual grupo pertence. O grupo sempre dará razão aos seus e verá os de fora como o mal encarnado, encontrando malabarismos retóricos para a justificativa moral.

A diferença dessa discussão foi o uso do método socrático, que é milenar e profundamente humano. Parte da lógica de que ninguém ensina nada ao outro nem convence, só nós evoluímos nas nossas próprias conclusões.

Consiste em uma série de perguntas na dinâmica da ironia e da maiêutica. A ironia, no caso, é fazer perguntas cujas respostas já se sabe para provocar a reflexão do interlocutor. A maiêutica é a série de perguntas para que o interlocutor conclua o ponto de vista que você pretende expor.

Paulo Cruz fez com que a deputada Carla Zambelli concluísse que suas afirmações não eram sólidas o suficiente para prosseguir. A forma deixa isso claro mesmo para quem não domina o conteúdo.

O bolsonarismo de sinal trocado tem sido acolhido como forma de restabelecer a democracia, mas entrega o mesmo resultado vindo daquilo que pretende combater. Talvez seja uma boa ideia retomar os clássicos.